Lionello Cerri
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'Exige-se do cinema uma contrapartida que a sociedade não tem', afirma diretor sobre acessibilidade

Silvio Soldini dirige o novo 'Emma e as Cores da Vida', com uma personagem deficiente visual

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2018 | 03h00

Numa entrevista por telefone, da Itália, Silvio Soldini regozija-se ao saber que seu filme Emma e as Cores da Vida está iniciando as atividades de uma nova distribuidora, a Arteplex, que inclui Ademar Oliveira entre seus proprietários. Poderia ter outro nome? Oliveira possui as redes Espaço – Augusta e Frei Caneca – e a segunda chamava-se Arteplex Frei Caneca, lembram-se? A escolha do longa do cineasta italiano define, de cara, o compromisso da Arteplex Distribuidora com um cinema de pretensão artística e popular. Anos atrás, os cinemas de Oliveira lançaram outro grande sucesso de Soldini – Pão e Tulipas. “Auguri”, Sucesso, felicidades, deseja Soldini.

No original, Emma chama-se Il Colore Nascolto de le Cose, As Cores Ocultas das Coisas. Emma é a personagem de Valeria Golino. É cega. O filme começa com a tela toda preta e a voz dessa mulher, que fala. Trata-se de um experimento, e entre os que estudam está Teo, Adriano Giannini, filho de Alessandro. Ele trabalha com publicidade. Vende coisas, e para isso recorre a imagens, cores que têm de atuar no imaginário do público. A voz fica com ele. Ele a ouve, em outro momento. Emma é osteopata e ele vai consultar com ela. Confidencia ao amigo que ela é sexy. O amigo aposta – “Te pago um jantar, se a levar para a cama.”

E tudo poderia começar assim, por um toque de machismo. Na verdade, o interesse de Soldini pelo tema começou numa conversa com um grupo de cegos. Eles lhe disseram que não se sentiam representados pelo cinema. A reclamação permaneceu com o diretor, que, em 2013, fez o documentário Per Altri Occhi. Em inglês, Different Eyes. O dia a dia de um grupo de cegos – a correção política diz que é preferível ‘um grupo de deficientes visuais’. Um fisioterapeuta, uma música, um escultor, um pintor. Um dia na vida dessas pessoas – sua dificuldade de locomoção, todas as pequenas ações em casa e na rua, no trabalho. O preconceito. E a alegria de viver que, apesar de tudo, possuem. Per Altri Occhi venceu o Nastro d’Argento, o Oscar italiano, como melhor documentário.

Na trilha aberta vem agora a ficção. Emma e Teo. “Ele é um stronzo, idiota. Tem uma namorada a quem diz que está participando de um voluntariado, ajudando uma cega. Mas na verdade ele se interessa cada vez mais por ela. O essencial que é invisível para os olhos.” Soldini pensou em alguma metáfora sobre o cinema? Afinal, filmes estão o tempo todo abrindo nossos olhos para aspectos (muitas vezes) ocultos da realidade, coisas que não queremos ver. “Nunca pensei por esse lado, se houve metáfora surgiu naturalmente. Só pensei depois.” A ficção foi muito alimentada pelo documentário, pelo que Soldini aprendeu sobre cegos observando seus personagens em Per Altri Occhi.

Emma ensina francês a uma garota cega, e revoltada com sua condição. É para fornecer um contraponto ao aparente bem-estar de Emma, que é bela, sexy, bem resolvida no trabalho, na cama? “Emma, no atual estágio de sua vida e do filme está mais bem resolvida, mas imagino que, quando jovem, ela também possa ter sido revoltada.” E Teo? “É o verdadeiro deficiente da nossa história. É travado, não quer se comprometer, tem problemas de relacionamento com o pai, a mãe, a irmã. Ou seja, é (um homem) perfeitamente normal.” Soldini faz uma observação pertinente. “Nesse mundo tão individualista e desigual, exige-se hoje do cinema uma contrapartida que a sociedade não tem. Sou pela acessibilidade, pela audiodescrição, por tudo o que ajude a integrar, mas o que sinto é que, muitas vezes, essas políticas necessárias se tornam paliativas e mascaram problemas que as sociedades não querer enfrentar, como os dos imigrantes e refugiados. Na Europa, e na Itália, com esse governo de direita, é algo para se pensar.”

Para seu elenco, ele só tem elogios. “Valeria (Golino) ficou dois meses em treinamento, aprendendo a andar às escuras. E não tinha essa de fingir que não estava enxergando. Foi um treinamento duro, e ela se saiu bem. Se você pensa que Adriano (Giannini), por não ser cego na história, só precisou do roteiro, engana-se. Ele também precisou de treinamento para se ajustar a Valeria.” Emma estreia comprometido com a acessibilidade – e terá audiodescrição nas salas do Frei Caneca e Augusta.

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