Christoph Soeder/AP
Christoph Soeder/AP

Exibida em Berlim, comédia ‘Effacer l’Historique’ fala do vício em telefones celulares

Filme de Benoît Delépine e Gustave Kervern procura retratar uma das tragédias da vida moderna

Luiz Carlos Merten, enviado especial, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 18h13

BERLIM - O cinema brasileiro está repercutindo na 70.ª Berlinale. Variety, a Bíblia do showbiz dos EUA, mapeia a atitude do governo de Jair Bolsonaro com o cinema brasileiro de arte e a cultura negra, mas lamenta não abraçar com entusiasmo o filme de Marco Dutra e Caetano Gotardo, Todos os Mortos. Já Screen International foi mais receptiva, e no quadro de cotações da revista, com críticos de todo o mundo, All the Dead Ones ganhou o máximo de estrelas - quatro - de um crítico da China e duas vezes três (de profissionais da Alemanha e da Inglaterra). 

O festival chegou ontem, exatamente, à metade - a premiação ocorre no sábado, 29, ficando o domingo, 1.º, para a reprise da competição (e dos vencedores de todas as seções).

A segunda começou com um filme em língua francesa - Effacer l’Historique, Deletar a História, dos belgas Benoît Delépine e Gustave Kervern, que procura retratar uma das tragédias da vida moderna. A dependência das pessoas em relação aos celulares. Um trio de personagens, três histórias cruzadas, que seriam cômicas, se não fossem trágicas - mesmo assim, o filme é para rir, e o público de jornalistas riu muito. Uma profissional de ponta que perdeu o emprego numa usina nuclear porque ficou viciada em séries e nem detectou o vazamento que estava ocorrendo em sua cara. Ela vai trabalhar num sistema de transporte de luxo, mas tem avaliações baixas - que precisa apagar.

Os outros dois também precisam deletar vídeos comprometedores. A segunda mulher, o sexo que fez com um desconhecido e que ele gravou para chantageá-la. O homem do trio inicia um romance a distância, mas seu problema é o vídeo em que a filha sofre bullying na escola. Face ao pesadelo da comunicação nos tempos modernos, com seu incentivo ao consumo e às informações falsas, Delépine e Kervern propõem o retorno à simplicidade. Isto é, os celulares são enviados àquela parte. Meio fantasioso, mas o filme leva jeito de repercutir, e agradar, principalmente àqueles que se sentem retratados na tela. Delépine e Kervern são veteranos em Berlim, onde já mostraram Mamute e Saint Amour - Na Rota do Vinho, ambos com Gérard Depardieu.

Dois alemães da competição ganham texto separado, nesta edição. E já houve o Abel Ferrara - Sibéria, com Willem Dafoe. A dupla de Go Go Tales e Tommaso volta a explorar os demônios da criação. Dafoe isola-se do mundo, mas não consegue se livrar dos sonhos desfeitos e dos fantasmas do passado. O filme de produção italiana tem cenas fortes, como se espera de Ferrara, mas não chega a trazer nada muito novo ao universo sórdido e violento do autor. Há dois anos, Dafoe recebeu aqui em Berlim o Urso de Ouro de carreira - prêmio a ser atribuído este ano, na quinta, 27, a Helen Mirren. Outro Urso para o ator? Dafoe veio dizer que, na vida como na arte, tudo o leva a Ferrara. “Volto sempre a ele, e não só como amigo, mas porque possuímos uma conexão muito forte quando se trata de colocar na tela sentimentos profundos. Abel é um autor visceral. Joga-se no filme como se sua vida dependesse disso. Gosto dessa radicalidade.”

Nas seções paralelas, a retrospectiva do cineasta King Vidor tem permitido revisitar filmes clássicos, que pertencem à história do cinema. Ontem passou o cultuado Stella Dallas, Mãe Redentora, com a atriz Barbara Stanwyck, de 1937. O ator e diretor Daniel Filho, com sua experiência na televisão, vê nesse filme a fonte de todas as novelas - o amor de mãe, que leva Stella a se sacrificar pelo bem-estar da filha. 

Por falar em TV, Berlim abriu um espaço para séries. Hillary Clinton foi a capa da Screen desta segunda. Berlinale Special está abrigando as exibições dos quatro capítulos de uma série documentário dedicada à ex-primeira-dama dos EUA. A própria Hillary é convidada superespecal do festival.

Mitos antigos aparecem renovados em ‘Undine’ e ‘Orfea’

Dona da casa, a Alemanha sempre emplaca diversos filmes em todas as seções da Berlinale e ainda tem uma que é específica - Perspective Deutsches Kino, com as novas tendências da produção alemã. Dois filmes já foram exibidos na mostra competitiva. Um deles é só uma questão de tempo paras chegar às salas brasileiras. Foi comprado por Jean-Thomas Bernardini, da Imovision. Undine, de Christian Petzold, transpõe o mito grego de Ondina para uma Berlim em transformação.

É interpretado por Paula Beer e Franz Rogowski, a mesma dupla de outro filme do autor - Em Trânsito. Paula é a moderna Ondina, e como na mitologia ela representa o amor absoluto, possessivo. De cara, adverte ao amante que o matará - se for infiel. Petzold mistura Bach com Bee-Gees na trilha e impõe à sua atriz um caminhar meio robótico, que só Rogowski não vê. Se prestasse atenção, o personagem talvez se desse conta da sinuca em que se está metendo.

Melhor é My Little Sisters, de duas diretoras, Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, com Nina Ross, atriz frequente nos filmes de Pertzold, e Lars Eidinger, o oficial alemão do belo Persian Lessons. O longa do ucraniano Vadim Perelman, aliás, virou a sensação do mercado. Os norte-americanos estão promovendo um leilão que jogou o preço do filme lá em cima, não se sabe direito se para lançar nos cinemas ou fazer o remake.

Hollywood adora as (boas) histórias de Holocausto. O grande problema de My Little Sister, se é que chega mesmo a ser problema, é que o filme já ganhou o rótulo de drama pequeno-burguês.

DR - discutir a relação. Há um casal em cena, com dois filhos. São intelectuais, e ela, a personagem de Nina, é dramaturga. Só que a relação dissecada por Stéphanie e Véronique não é bem a de marido e mulher, mas de irmãos. Nina é irmã gêmea de Eidinger. A irmã mais nova, little sister, porque nasceu dois minutos depois. Ele é ator, e está morrendo de câncer. Nina tem uma dedicação absoluta, obsessiva pelo irmão. Doa sangue, submete-se a transplante. Nada dá certo. A mãe, interpretada por Marthe Keller - a Fedora de Billy Wilder -, o marido, o ex, todos tentam chamar Nina à razão. Ela briga com todo mundo, isola-se.

É um filme muito bem feito, e principalmente muito bem interpretado. Nina já é candidata a melhor atriz - sempre é -, mas disputa com Mawisi Tulani, que faz a ex-escrava do brasileiro Todos os Mortos.

A Berlinale de 2020 criou uma nova seção - Encounters - para celebrar a liberdade de criação. Dela participa um veterano que ajudou a revolucionar o cinema alemão nos anos 1960. Alexander Kluge, em parceria com Khavn, Lilith Stangenberg e Ian Madrigal, renova o mito de Orfeu por meio de uma inversão de gênero, em Orfea. Dessa vez, é ela que vai ao inferno para resgatar seu Euridiko. O filme terá sua primeira exibição nesta terça.

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