"Excêntricos Tenenbaums" aposta na força da família

Wes Anderson é um jovem cineasta texano de 32 anos. Assina um dos filmes norte-americanos mais interessantes e originais dos últimos anos. Os Excêntricos Tenenbaums estréia nesta sexta. É a história de uma família de gênios. Começa numa Nova York de fábula ou fantasia.Nesse primeiro capítulo, os Tenenbaums são crianças que possuemhabilidades excepcionais.Anjelica Huston faz a mãe e Gene Hackman, o pai. As crianças crescem e aí é que está o problema. Viram adultos cheios de problemas, interpretados por Gwyneth Paltrow, Ben Stiller e Luke Wilson. A família desintegra-se - em termos. Pois a grande novidade que coloca Os ExcêntricosTenenbaums na contramão de quase tudo o que se faz hoje, nosEUA e no mundo, é que Anderson, no fundo, acredita na família eisso faz toda a diferença.Pense em filmes como Felicidade, de Todd Solondz, ouBeleza Americana, de Sam Mendes. A família, neles, é oinferno. Esses filmes, no fundo, são a regra quando o assunto éa vida familiar. Pois Anderson faz sua aposta na família.Leva-nos a apostar, também. Seu filme não apenas revigora otema. É a prova de um singular talento de narrador.Charme particular - Talvez a mais clássica de todas as histórias sobre crianças prodígios que viram adultos fracassados seja a de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich, com Bette Davis e Joan Crawford como as duas irmãs que nunca se amaram e agora fazem de tudo para infernizar a vida umada outra. Wes Anderson não segue essa trilha em Os ExcêntricosTenenbaums. O filme possui um charmetodo particular. Não é nem um pouco realista ou naturalista.Anderson trabalha no registro da parábola. Mostra personagensconfrontados com eles mesmos, que precisam reavaliar suas vidaspara seguir em frente.Já era assim em seus filmes anteriores, PuraAdrenalina e Três É Demais, mas agora ele mudacompletamente o tom. A família Tenenbaum é realmente excêntrica.O primeiro capítulo do filme, narrado como conto infantil, comdireito a ratinho na esquerda da tela e tudo, mostra quem sãoessas pessoas. As crianças são todas geniais. Um é um gênio dasfinanças que comanda um escritório como se fosse a coisa maisnatural do mundo, outro é campeão de tênis e, a terceira, pois éela, é uma menina que foi adotada e publicou sua primeira peçaaos 10 anos.Happy end - Anjelica Huston é a mãe e viaja no sucesso dos filhos,escrevendo um livro sobre o processo de lidar com todas essaspersonalidades fora de esquadro. Gene Hackman é o pai e aqui oproblema é mais complicado. Ele não apenas não liga para agenialidade dos filhos. Não liga para eles, mesmo.Papai e mamãe separam-se, mamãe arranja um pretendente eos filhos, que eram gênios, revelam-se adultos fracassados. Vocêjá viu esse filme, mas nunca tratado dessa maneira. Por umasérie de circunstâncias, a família vê-se reunida sob o mesmoteto. O pai simula estar morrendo de câncer para ser aceito. Osfilhos exibem graus variados de ressentimento. O mais radical éBen Stiller, o ex-gênio das finanças. Luke Wilson, o ex-campeãode tênis, é apaixonado pela irmã, mas Gwyneth Paltrow, afinal decontas, não é irmã de verdade. E há um quarto "irmão",interpretado por Owen Wilson. É o vizinho cujo único sonho erafazer parte da família Tenenbaum, sendo aceito como um deles.Espera consegui-lo casando-se com a outra promissora dramaturgaGwyneth.Brigas, ressentimentos, todo tipo de agressões verbais eaté físicas. A família desintegrou-se, mas isso não dura muitotempo, pois o diretor Anderson acredita na unidade familiar, adespeito de tudo. Mas convém não assistir a Os ExcêntricosTenenbaums à espera de um happy end, pelo menos no sentidoconvencional. A família, apesar de tudo, une-se, mas a misturade alegria e tristeza, de humor e drama é que dá o tom do filme.Você vai rir, com certeza, mas não é uma comédia desopilante. Háum travo amargo que emerge da dificuldade dessas relações e doque as pessoas precisam abrir mão para entender-se. Wes Andersonpode não ter inventado a fórmula, mas cria o que não deixa deser uma fantasia com os pés bem firmes no chão.Elenco - Boa parte do encanto de Os ExcêntricosTenenbaums vem do trabalho dos atores, todos ótimos, numregistro não naturalista. Gwyneth Paltrow e Anjelica Huston sãoótimas, mas quem rouba a cena é Gene Hackman. Desde Uma Rajadade Balas, de Arthur Penn, nos anos 60, no qual fazia o irmãode Clyde Barrow, Hackman é considerado um dos grandes atores deHollywood. Curiosamente, não é um dos preferidos do público,pelo menos no Brasil, onde seus filmes raramente emplacam eviram grandes êxitos. Tomara que Os Excêntricos Tenenbaumsvenha a ser a exceção que confirme a regra. Hackman poucas vezesesteve tão bem e num papel que lhe permite explorar sua veiamais cômica.Por melhor que seja o elenco de Os ExcêntricosTenenbaums, a estrela do filme é mesmo o diretor Anderson.Talvez ele não seja (ainda não seja) o gênio anunciado pelacrítica norte-americana, que pôs seu filme nas alturas, mastalentoso, com certeza, é. Anderson é co-autor do roteiro (com oator Owen Wilson). Sabe que, no cinema, tudo se resolve namise-en-scène, segundo a fórmula famosa estabelecida pelocrítico francês Michel Mourlet. Tratada de forma realista, ounaturalista, a história dos Tenenbaums seria banal. O segredo deAnderson está no tom que ele adota e nos recursos que utilizapara dar sustentação às imagens (e ao ritmo).Sua trilha é uma das mais elaboradas da atualidade, comcanções que se integram ao sentido de cada cena. Anderson nãousa a música de forma nostálgica, como Woody Allen, quandoescava nos clássicos da "american song". Anderson recorre ao popcomo comentário irônico. Ele também carrega nos signos visuais.Uma família excêntrica como a dos Tenenbaums precisa deambientes e figurinos adequados para transmitir ao público essaexcentricidade. O resultado é um filme super, hipercriativo, umadeliciosa extravagância que diverte homenageando a inteligênciado espectador. A defesa da família de Anderson é o que falta noOscar. A festa do dia 24 ficaria melhor com os excêntricosTenenbaums na platéia. É um absurdo que o filme concorra só aoprêmio de melhor roteiro original. Gene Hackman teria todachance de ganhar seu segundo Oscar de coadjuvante (após o deOs Imperdoáveis, de Clint Eastwood, em 1992).Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums). Drama. Direçãode Wes Anderson. EUA/2001. Duração: 109 minutos.

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