Excelentes produções nacionais desafiaram hegemonia da comédia em 2013

O ano dos longas repetitivos teve excelentes lançamentos nacionais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

25 de dezembro de 2013 | 20h16

Uma cidade como São Paulo apresenta média de 400 estreias, apenas no circuito comercial. Isso sem falar nas mostras, retrospectivas e festivais. É uma cidade cinéfila e, por isso, ao fatiarmos o filé mignon nosso de cada fim de ano, verificaremos saldo em geral positivo. Mesmo que a enxurrada de filmes ruins, medíocres e repetitivos se imponha no dia a dia e nos faça crer que o cinema acabou, há sempre um bom número de lançamentos a serem saudados. São as exceções.

 

Por exemplo, como não ficar contente ao constatar que passaram pelas telas filmes notáveis e tão diferentes como Era uma Vez na Anatólia, do turco Nuri Bilge Ceylan, Um Toque de Pecado, do chinês Jia Zhang-ke, O Som ao Redor, do brasileiro Kléber Mendonça Filho, Tabu, do português Miguel Gomes, e A Grande Beleza, do italiano Paolo Sorrentino? Foram os cinco melhores lançamentos do ano, em minha opinião.

Mas a alegria de constatar a excelência dos eleitos não é menor que a de ver a batelada de outros belos filmes deixados de fora da lista, como os excepcionais Depois de Maio, de Olivier Assayas, O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, e tantos outros. Ao fazermos nossas listas, constatamos que o ano não foi tão mau assim. E que sobrevivemos da inevitável enxurrada de lixo hollywoodiano graças a algumas compensações singelas, como o fato de o grande Marco Bellocchio ter dois filmes lançados no Brasil no mesmo ano – A Bela Que Dorme e Irmãs Jamais.

Para o cinema brasileiro, 2013 foi também um ano digno de nota. Mais de cem lançamentos e um público que bateu na casa dos 25 milhões. Não é o ideal, mas não deixa de ser um marco positivo. Claro que a grande maioria desses ingressos foram vendidos para as inevitáveis comédias da Globo Filmes e sua absoluta falta de imaginação. Ou seja, mais do mesmo, sejam quais forem os comentários benévolos que esses filmes recebam de “críticos” integrados. Crítica não é press release. Ou não deveria ser.

Mas o ano das comédias teve também, para compensar, o lançamento do excepcional O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, um dos mais importantes filmes brasileiros dos últimos anos. Quando, digamos, daqui a dez anos, as comédias forem apenas um marco estatístico, O Som ao Redor estará sendo ainda discutido como uma cristalização de impasses e contradições políticas e estéticas dos anos 2000 no País. Não é pouco, e o filme já vem fazendo esse percurso pelo que resta da inteligência do País.

O Som ao Redor não foi o único. O circuito viu ainda outros excelentes lançamentos nacionais, como as ficções Hoje, de Tata Amaral, e Tatuagem, de Hilton Lacerda, além de documentários marcantes como O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, e Mataram meu Irmão, de Cristiano Burlan, entre outros.

Tudo isso no plano dos lançamentos. Mas não seria justo encerrar um balanço de 2013 sem evocar algumas retrospectivas que pudemos ver nas telas do circuito alternativo do cidade. Autores como Jacques Rivette, Eric Rohmer e Maurice Pialat ganharam mostras completas no CCBB. O Cinesesc promoveu uma estupenda revisão dos filmes de Billy Wilder, com cópias impecáveis. E a Mostra de São Paulo, ao recolocar na tela grande os filmes de Stanley Kubrick relembrou a todos porque ele foi um imenso diretor.

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