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Ex-musa de Bergman, Liv Ullman estreia filme e prepara peça baseada em roteiro dele

'Senhorita Júlia' estreia em 21 de maio; leia a entrevista e a crítica; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2015 | 03h00

Liv Ullman conversa com o repórter, pelo telefone, de sua casa na Flórida. “É um lugar muito gostoso, muito relaxante para escrever, e é o que faço.” O que ela escreve? “A Real Academia Sueca me encomendou uma peça baseada num roteiro de Ingmar Bergman, Confissões. Devo concluir o texto e começar os ensaios no segundo semestre. A previsão é estrear no inverno europeu”, conta.

A boa notícia é que, por mais que se dedique ao teatro, Liv Ullman não desistiu do cinema e em maio, no dia 21 - guarde a data - estreia Senhorita Júlia, que ela adaptou da peça de Strindberg. Jessica Chastain e Colin Farrell formam o casal de protagonistas, a arrogante filha de um aristocrata que, na noite mais quente e longa do ano, se envolve com um ambicioso e vulgar serviçal. Essa sinopse é consagrada quando se fala de Senhorita Júlia, mas Liv não está muito de acordo. Na versão dela, Jessica é mais solitária que arrogante e Jean/Colin não é o ‘macho man’ de outras adaptações da peça.

Na entrevista, Liv conta como chegou a Strindberg, um autor que lhe desagradava - por sua misoginia. Ela conseguiu enxergá-lo de forma diferente ao dirigir Cate Blanchett na montagem de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, na Austrália. Pesquisando sobre a gênese do texto, estabeleceu a conexão não apenas entre Williams e Strindberg, mas também entre Strindberg e William Faulkner. “Não sou eu que digo, foi o próprio Faulkner quem assumiu sua dívida com Strindberg ao receber o Nobel.”

Ela adorou voltar ao cinema, após mais de uma década de afastamento. Tem outro roteiro pronto - a adaptação de Casa de Bonecas, de Henry Ibsen, que pretende fazer com Cate Blanchett. Logo depois que ela foi a Blanche DuBois de Liv, no palco, Cate meio que repetiu o papel numa versão livre e ganhou o Oscar por Blue Jasmine, de Woody Allen. Liv preparou Cate para Woody Allen e o Oscar? “Você é quem diz”, ela ri. Só lamenta que Jessica e Colin não tenham sido indicados para os prêmios da Academia. Culpa os produtores. “Eles (os atores) mereciam.”

Por que a peça de Strindberg?

Foi uma pergunta que me fiz muitas vezes, durante o processo. Mesmo reconhecendo sua importância, nunca tive muito apreço por Strindberg. Incomodava-me, mais que sua decantada misoginia, o ódio que destila pelas mulheres nas peças. Tinha até um roteiro pronto para adaptar outro dramaturgo, Henryk Ibsen, Casa de Bonecas. Estava há muito tempo sem filmar e, quando os produtores me perguntaram se queria fazer alguma coisa, Senhorita Júlia veio de forma totalmente espontânea. Mas tem uma explicação. Embora estivesse há quase 15 anos sem dirigir para cinema, tenho dirigido bastante no teatro. Fiz com Cate Blanchett, na Austrália, o Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Foi um texto que me apaixonou, e também o trabalho com Cate, que é uma atriz extraordinária. Mas, até como preparação para meu trabalho de diretora, pesquisei sobre a gênese do Bonde e descobri que Tennessee se considerava devedor de Strindberg, por sua análise social e pela complexidade das personagens femininas. Uma coisa levou a outra e descobri que William Faulkner, em seu discurso de agradecimento do Nobel (de Literatura), também assumiu quanto devia a Strindberg. Tudo isso me motivou a reconsiderá-lo como homem e dramaturgo, e quando o filme me foi proposto, ao invés de Casa de Bonecas, que ainda planejo fazer com Cate Blanchett, me veio esse desejo de fazer Senhorita Júlia.

Não sou nenhum especialista em Strindberg, mas vi as versões de ‘Senhorita Júlia’ de Alf Sjoberg e Mike Figgis, e também a de um diretor brasileiro, Sérgio Silva. Existem coisas na sua versão que nunca vi antes. Você tira Cathleen da sua posição tradicional, dormindo na cozinha, e sou capaz de jurar que, quando Jean (Colin Farrell) fala da pobreza para Júlia (Jessica Chastain), aquilo era novo para mim. Estou dizendo alguma bobagem?

Não, e eu acho que você conhece muito mais Strindberg do que pensa. Soube dessa versão brasileira, mas não consegui vê-la. Até tentei. E mais curioso é que já dei muitas entrevistas sobre Senhorita Júlia, e nunca ninguém me cobrou as mudanças. São coisas pequenas, mas necessárias. Me incomodava que Cathleen dormisse na cadeira, num canto na cozinha, enquanto tudo se passava ao redor dela. Creio que o próprio Strindberg teria aprovado certos solilóquios de Júlia, quando coloco em palavras o que imagino que esteja se passando na cabeça dela na peça. E quanto a Jean verbalizar o que representa a pobreza... O elemento social, o choque de classes entre a filha do conde e o caseiro do pai é muito forte, e eu sentia falta de ver Jean colocar em palavras a inferioridade que o aflige. Existe outra diferença, mas aí não agreguei. Cortei. A peça tem esse momento em que, na noite do solstício, a cozinha é invadida pelos casais que dançam selvagemente. É uma noite de celebração, como se fosse uma dança do diabo. (Ingmar) Bergman diria isso. Cortei porque queria que o filme ficasse centrado no trio Júlia/Jean/Cathleen. São eles que me interessam.

Você tem uma atriz fantástica, Jessica Chastain. Mas Colin Farrell há tempos não estava tão bem na tela. Que milagre foi esse?

Não foi milagre nenhum. Eles são muito bons. Acho que existe, da parte de todos, um preconceito quanto à capacidade de interpretar de atores de cinema, e de Hollywood. Quando escolhi Jessica e Colin, o que mais me impressionou foi que ambos chegaram ao set com pleno domínio do texto. Se fossem atores europeus, a gente tem a tendência de achar que seria natural. Atores de cinema não são intelectualizados. Mas são! Jessica entendeu perfeitamente o que eu queria fazer, expressando a solidão de Júlia em momentos pontuais que equilibram, o que parece sua agressividade de classe. A versão de Mike Figgis ressalta Jean como ‘macho man’, mas não era isso que queria e Colin apresenta um trabalho muito matizado, muito sutil. Expõe as fragilidades de Jean de forma que acho comovente. Briguei com os produtores porque eles foram incapazes de fazer campanha para que ambos pudessem se candidatar ao Oscar. Bastaria enviar DVDs do filme aos membros da Academia. Antes de diretora, sou atriz. Gostaria que eles tivessem ido para o Oscar. Não por mim. Por eles.

O filme é muito bonito, visualmente. Como trabalhou o visual?

Nos filmes de Bergman vi em operação talvez o maior diretor de fotografia do mundo, Sven Nykvist. Mesmo assim, nunca me liguei na parte técnica do cinema. Trabalhei com um grande diretor de fotografia russo, Mikhail Krichmann. Nem sempre foi uma convivência pacífica, mas como ele sabe tudo de luz e eu, nada, essa era a área dele. No frame, o enquadramento, quando Mikhail queria interferir, eu dizia não. Como diretora é minha área. Íamos filmar em estúdio, mas tive o privilégio de ter uma diretora de arte, Caroline Amies, que transformou o castelo em que íamos fazer só umas cenas num set maravilhoso. Com esses dois, e os atores, meu retorno ao cinema não poderia ter sido mais prazeroso.

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Obra original é marco do teatro moderno

Na entrevista ao lado, Liv Ullman conta que sempre teve uma relação conflituosa com Strindberg, por causa da misoginia do dramaturgo. Foram dois autores norte-americanos – Tennessee Williams e William Faulkner – que lhe abriram os olhos para um Strindberg que não conhecia. Ela nunca fez nada dele no teatro. “Ingmar (Bergman), sim.” Refere-se ao ex-marido, com quem foi casada e fez nove filmes entre 1966 e 2003. Se não são todos grandes, pelo menos uma meia-dúzia carrega a fama de obras-primas. “Bergman sempre gostou dos desafios de encenar Strindberg”, diz. ‘Senhorita Júlia’ foi escrita pelo autor em 1888. É considerada um marco da moderna dramaturgia. Como bom discípulo de Kierkegaard, Strindberg sempre foi torturado, mas o fracasso do primeiro casamento deixou-o ainda mais amargo e misógino. A história da aristocrata e do serviçal possui elementos associados às correntes literárias naturalista e expressionista.

CRÍTICA: Quando tomar liberdades significa permanecer fiel

No começo dos anos 1950, o diretor Alf Sjoberg recebeu o grande prêmio do Festival de Cannes – a Palma de Ouro só surgiria mais tarde, naquela mesma década – por sua adaptação de Senhorita Júlia. Desde então, a peça famosa de August Strindberg teve pelo menos mais três versões na tela. A de Mike Figgis, com Saffron Burrows e Peter Mullan, de 1999, e a de Liv Ullman, que estreia em 21 de maio. Entre ambas, em 2003, o diretor brasileiro Sérgio Silva fez sua adaptação, que intitulou Noite de São João. Fernanda Rodrigues faz a Júlia gaúcha e, como ‘João’, Marcelo Serrado foi melhor ator em Gramado. Na entrevista, Liv Ullman elogia seus atores e lamenta que Jessica Chastain e Colin Farrell não tenham tido visibilidade suficiente para lhes garantir as indicações para os prêmios da Academia de Hollywood. Produção independente, Senhorita Júlia teve boa acolhida em festivais, mas o lançamento pequeno não ajudou a chamar a atenção dos membros da Academia.

De todas as quatro adaptações conhecidas da peça, a de 1951 marcou época pela ousadia do diretor, que faz com que diferentes tempos, passado e presente, coincidam nas mesmas imagens. O recurso inovador com certeza deve ter contribuído para o prêmio em Cannes. O filme tornou-se referência para diretores como Paul Newman (em Rachel Rachel) e Elia Kazan (Movidos pelo Ódio). A versão de Liv Ullman não inova na linguagem – mas o filme é muito bonito, visualmente. As inovações da diretora/roteirista referem-se a liberdades que ela toma para permanecer fiel ao texto.

Júlia pode até ser, no começo, arrogante, mas é uma máscara da garota que, pela origem aristocrática, cresceu estimulada a se isolar do mundo ao redor. Jean não é o macho man vulgar de outras adaptações. É ambicioso, mas seu discurso sobre a pobreza ajuda a entender muita coisa no seu comportamento. Dá para sentir o horror quando ele relata o que é acordar na cama que compartilha com o irmão e ele está morto – de fome? Na visão de Liv, ambos são essencialmente solitários e cada um tem seu momento. A diretora não mostra a cena de sexo, que poderia agregar erotismo ao relato – afinal, Jessica e Farrell. Mostra a desolação de Jessica/Júlia depois que ele vai embora. A de Farrell que se lava para tentar tirar o cheiro da mulher que se impregnou nele, e Jean sabe que nunca estará no mesmo plano social que ela ocupa.

Entre as liberdades que Liv toma – e confirma na entrevista – estão falas de Júlia que, embora não sejam do texto original, não contradizem Strindberg, mas permitem entender, do ponto de vista da mulher, a aversão que o dramaturgo não escondia sentir por elas, principalmente depois do fracasso do primeiro casamento. O filme é bem construído do ponto de vista dramático. Fica coeso pela opção da diretora e roteirista de concentrar o foco no trio formado por Júlia/Jean/Cathleen. A criada deixa de ser a dorminhoca na cozinha. Ganha uma identidade no quarto e também ela tem seu momento, quando, na porta, tenta entender o que se passa na cozinha.

Durante o período em que esteve casada com Ingmar Bergman – um dos maiores diretores do cinema – e, depois da separação, quando se manteve integrada a seu elenco, Liv Ullman fez um total de nove filmes com ele. Muitos são obras-primas indiscutíveis. Roteiros originais que Bergman impregnava de seus conhecimentos de dramaturgia e literatura. Liv, como artista, é mais modesta. Conta histórias que Bergman tornaria mais densas e transcendentes. Mas ela dirige bem os atores e, mesmo se concede ao diretor de fotografia Mikhail Brichman os méritos da iluminação, reivindica para si o frame. O enquadramento. É na construção do plano, na distribuição dos atores no cenário, que o cinema vira representação do homem no mundo. Há beleza em Senhorita Júlia – aguarde o 21 de maio para conferir. A própria Liv admite que, tendo passado mais de uma década sem dirigir para cinema, poderia ter perdido a mão. “A força do texto me guiou”, confessa.

 

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