Reuters
Reuters

Ex-Monty Python Terry Gilliam lança novo filme

Em entrevista, diretor conta como mudou o final de 'O Teorema Zero' sem conhecimento do estúdio

Pedro Caiado, Especial para O Estado de S. Paulo / Londres

18 de maio de 2014 | 03h00

Entre os remanescentes da trupe Monty Python, Terry Gilliam foi o que conseguiu desenvolver a carreira mais prolífica após o fim do grupo, em 1983. O americano, naturalizado inglês, responsável pelas peculiares animações que definiram a linguagem dos Python, se tornou um dos diretores mais intensos e criativos da indústria cinematográfica, desde a realidade distópica de 12 Macacos até o surrealismo de O Imaginário do Doutor Parnassus. Entretanto, Gilliam também acumulou fama de “difícil” após uma série de produções problemáticas, projetos abortados e orçamentos que saíram do controle.

“Você é tão dificil que me lembra o John Lennon”, disse George Harrison após assumir uma hipoteca para ajudar a financiar Os Bandidos do Tempo, filme que se tornou sucesso de bilheteria em 1981. Seu longa seguinte, Brazil, de 1985, foi vetado pelo estúdio quando Gilliam se recusou a modificar o final sombrio. “Eles queriam mudar o filme inteiro”, contou ele em entrevista ao Estado, em Londres. Por sua vez, O Imaginário de Doutor Parnassus, seu último longa, sofreu com outro contratempo: a morte do ator Heath Ledger durante as filmagens, em 2008. Entretanto, a maior batalha do diretor foi a produção (ou a não produção) de O Homem que Matou Don Quixote, cancelado seis vezes e recentemente reiniciado – a produção de 1998 foi adiada por conta de enchentes no set e problemas de saúde do ator principal.

Seu novo filme, O Teorema Zero, ainda sem data de estreia prevista no Brasil, não sofreu grandes contratempos e tem sido considerado uma sequência do longa que marcou sua carreira e leva o nome do nosso país: Brazil. Gilliam confirma que este é o fechamento da trilogia iniciada pelo longa e seguida por 12 Macacos, em 1995. Utilizando realidades alternativas, o filme aponta os defeitos de nosso mundo. Christopher Waltz (Django Livre) vive Qohen Leth, um gênio da computação que habita uma Londres futurista, saturada em comerciais e dependente da tecnologia. Sua tarefa: provar que a vida – o universo e tudo mais – equivale a zero. 

Menos e mais. O Teorema Zero teve orçamento drasticamente reduzido de U$20 milhões para U$8 milhões, mas Gilliam defende que a versão final é ainda mais elaborada que a originalmente planejado. “Eu prefiro fazer filmes com menos do que com mais”, disse o cineasta durante apresentação no Festival de Cinema de Londres. O animado diretor confessa com humor que o filme é um alerta para a atual sociedade “extremamente digitalizada”. “De certa maneira, o que esse filme quer dizer é: procure um significado para a vida agora; viva o agora”, diz, com certa urgência. “Em uma era de twitter e informação sem fronteiras, ninguém tem tempo de descobrir quem verdadeiramente é”, critica. E aconselhou: “Passe um tempo sozinho e descubra quem você é. Não dependa de um amigo para saber quem você é ou o que você deve fazer”.

O filme não poderia ser lançado em melhor momento: em 2014, a internet comemora 25 anos de existência. Mas quão distante seria a realidade apresentada por O Teorema Zero? “Está tudo tão rápido que a realidade do filme já até virou passado”, brinca Gilliam, que também criticou a função da internet durante o último Festival de Veneza. “Eu me preocupo em saber se temos relacionamentos reais ou somente virtuais hoje em dia.”

O diretor estende suas criticas também aos executivos de Hollywood. “Com esse comportamento, muitos de nós se tornam axiomas, somente transmitindo informações. E é assim infelizmente que os executivos de Hollywood se comportam hoje em dia. Eles apenas repassam informações, e só”, afirma. O personagem principal do novo filme busca o significado da vida e Gilliam explica que seus filmes têm algo em comum com sua própria vida. “Eu sempre acabo fazendo filmes autobiográficos. Qual seria então o significado da vida? – título do último filme dos Phyton, há 30 anos: “A minha inabilidade de saber o que é. Uma eterna busca”, confessa, meio confuso. 

Sobre a escalação de Christopher Waltz, ele diz: “Logo no primeiro dia eu disse a ele que não ia dizer o que ele deveria fazer e não iria seguí-lo”. Para o diretor, a história do próprio ator contribuiu para o filme. “Esse é um ator que só alcançou sucesso aos 52 anos de idade. Toda aquela frustração de não ser reconhecido por anos contribuiu para o filme e essa é talvez a melhor performance que ele já fez.”

Final feliz. Gilliam confessa também que decidiu cortar o final feliz sem o conhecimento do estúdio. “De uma certa forma, eu refiz o filme na edição e a primeira coisa foi cortar o incrível final hollywoodiano”, diz ele, com sorriso irônico. “O final feliz foi um dos motivos que levou esse projeto a ser feito e eu os traí”, continua, afirmando que irá incluir as cenas nos extras do DVD. Com a comparação feita pela crítica de que o ator David Thewlis se pareceria com Eric Idle, ele rebate: “Não tem nada a ver. Eu certamente não o encorajei. David é muito mais inteligente, sutil e até mais engraçado que o Eric”.

Gilliam irá se juntar uma vez mais as colegas da trupe Monty Phyton, após 30 anos, para uma série de dez apresentações em Londres em julho. “Os cenários serão espetaculares. Mas se não der certo, nós já temos o dinheiro. Não precisamos nem aparecer se não quisermos.”

Tudo o que sabemos sobre:
Cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.