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Ex-agente se vê forçado a reviver o dia de sua morte em 'Mate ou Morra', de Joe Carnahan

Tributo à estética dos videogames vem ganhando status de cult

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

16 de setembro de 2021 | 20h00

Tributo à estética dos videogames, o thriller Mate ou Morra (Boss Level, no título original), que estreia ontem, 16, nos cinemas, vem ganhando status de cult em sua carreira pelo mundo, apoiado no carisma de Mel Gibson, graças ao estilo particular de retratar a violência de seu diretor: Joe Carnahan. Em 2002, ele levou ao Festival de Sundance, nos EUA, uma pequeníssima produção policial de ambições dramatúrgicas mais alta do que a média dos filmes centrados no combate às drogas da época, com Jason Patric e Ray Liotta: Narc

Instantaneamente, seu nome virou assunto entre os caçadores de talento de Hollywood e até Tom Cruise interessou-se em tê-lo como um potencial diretor em seus projetos. Sua promessa de excelência materializou-se com o sucesso de A Última Cartada e com sua escalação para filmar Esquadrão Classe A, com Liam Neeson, em 2010, retomando a parceria com ele em A Perseguição (2011), um dos longas mais bem elogiados da fase recente do ator irlandês. 

Mas com seu mais recente exercício autoral, Carnahan – cuja marca pessoal é o interesse por heróis em fim de linha e sua habilidade de criar narrativas claustrofóbicas – reforça a ambição estética que tinha duas décadas atrás.

“É um erro e um desrespeito o cinema querer competir com a violência do mundo real, que é assustadora e injustificável, apostando em um grafismo exacerbado. O que eu tento fazer é abrir um debate sobre a natureza solitária do heroísmo e também trabalhar a forma dos filmes com uma carpintaria bem aparada e envernizada. Não sei o que as irmãs Wachowski (Lilly e Lana) preparam para o novo Matrix, mas sinto que virá um passo além para o gênero ação dali, assim como Tony Scott empurrou o filão à frente, ao longo de sua obra. Tenho essas criadoras e esses criadores como modelos e tento retrabalhar o legado dos games, para além de seu binarismo”, diz Carnaham, via Zoom, ao Estadão

Elogiado no circuito europeu, Mate ou Morra dá ao ator Frank Grillo uma chance de recriar a linhagem de vigilantes gaiatos que Bruce Willis representava como poucos em Duro de Matar (1988). Sob a direção de Carnahan, Grillo é Roy Pulver, um ex-agente das forças especiais que se vê forçado a reviver o dia de sua morte inúmeras vezes. É uma espécie de Feitiço do Tempo (1993) com adrenalina. 

Ele acorda, é perseguido por assassinos e, não importa o que tenta fazer, sempre acaba morrendo no final. Enquanto desenvolve uma teoria capaz de justificar o que pode estar acontecendo, Roy percebe que sua família também corre perigo e luta para descobrir uma forma de quebrar esse ciclo mortal. Para isso, ele precisa chegar ao fim de um dia, ao menos, com vida. E sua missão fica mais complicada uma vez que essa repetição se desenha a sua frente como se fosse um game de tiro e pancadaria. 

Mel Gibson é o coronel Clive Ventor, o criminoso que controla o destino de Roy, dominando a equação do tempo.

“Em uma linha dramatúrgica, Roy age como um dos personagens de Os Sete Samurais, movido por um código que reflete uma certa nobreza. Mas, por outro lado, ele é como Yojimbo: um samurai cujo único exército é sua própria sorte”, define Carnahan, citando clássicos dirigidos por Akira Kurosawa. 

“Temos aqui a aventura de um sujeito que desafia a Justiça em prol de um bem maior, que vai além de sua própria família, uma vez que o mecanismo de repetição do tempo é um risco para o mundo”, diz. 

 

Fã de faroeste

Falando da trama, Carnahan, que é fã de faroestes – “Um filme como Django Livre é dinamite pura”, diz –, explica como buscou incorporar os códigos dos videogames na concepção visual de Mate ou Morra. “Para quem cresceu com consoles de 8 bits ou mesmo de 64 bits, antes do grafismo dos jogos de hoje, os videogames eram uma experiência de imersão numa lógica binária: é matar ou morrer. E essa lógica era justificada por um maniqueísmo explícito. O que tento, nesse filme com Grillo, é embaralhar sensos maniqueístas e tornar os personagens mais complexos. Os longas ligados a games em geral tentam imitá-los. Mas você não consegue, numa imitação, devolver ao jogador de um Call of Duty a sensação que mais o instiga: o poder de controlar uma vida a partir de botões e teclas”, diz o cineasta. 

“O que tentamos aqui, num mundo pós-Avatar, pós Free Guy, é a experiência de estudar as complexidades de um sujeito que vive o mesmo dia continuamente. Ou melhor, que vive a morte continuamente”, conclui Carnahan. 

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