Evento compila e discute legado de Leila Diniz

Grande escritora, Lygia Fagundes Telles também foi a primeira mulher a cursar a Faculdade de Direito, no Largo São Francisco. Por isso mesmo, Eugênio Puppo e Daniel Brandão, filho do escritor Ignácio de Loyola Brandão, estão pedindo a Lygia que escreva o texto de abertura do livro que eles pretendem dedicar a Leila Diniz e que integra um projeto maior - Leila para sempre Diniz, como o título do poema de Carlos Drummond de Andrade. Livro, retrospectiva dos filmes, exposição de fotos e mesas-redondas. Leila para sempre Diniz quer reabrir o debate sobre aquela que, no dizer do poeta, o grande Drummond, "libertou as mulheres de sua geração".Leila, a libertária, revista por Lygia Fagundes Telles, feminista avant la lettre. E não só por Lygia. A idéia do livro é trazer a histórica entrevista de Leila ao Pasquim, depoimentos dos diretores que trabalharam com ela, de amigos e familiares. Tudo para retraçar o mito dessa mulher que viveu como um furacão no Brasil dos anos 60, morrendo tragicamente num desastre de avião. Em junho de 2002, completam-se 30 anos da morte de Leila. Em março, no dia 25, ela estaria fazendo 57 anos (nasceu em 1945). A idéia de Puppo e Brandão é inaugurar o megaevento sobre Leila em 15 de março, mas para isso eles precisam de um co-patrocínio. Explica-se o co-patrocínio. O evento, orçado em R$ 170 mil, já tem patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, que não tem condições de bancar essa verba toda. Sem ela, o livro sobre Leila arrisca-se a virar só um catálogo da exposição e da retrospectiva. Os curadores Puppo e Brandão também querem fazer cinco cópias de cada filme, restaurar os que não estão 100%. O orçamento já aprovado pelo CCBB, e que eles não divulgam, não permite fazer tudo isso. Impõe uma limitação, acaso uma modéstia que eles acham que não serve à magnitude do projeto. Puppo já assinou a curadoria das mostras sobre o cinema marginal e Walter Hugo Khouri. Ambas estão entre o que de mais importante o CCBB promoveu este ano. Consciente da importância do trabalho de resgate cultural que o CCBB realiza, Puppo procura agora a segunda parceria, ou o co-patrocínio, para dar a Leila a exposição que ela merece. Puppo tem 35 anos. Tinha apenas 5, portanto, quando Leila morreu. Adulto, descobriu a personagem e ficou absolutamente fascinado, mas nunca entendeu inteiramente Leila Diniz. Promove esse evento, agora, movido pela curiosidade.Foi a mesma curiosidade que o levou a fazer a curadoria do evento sobre o cinema marginal. Puppo conhecia aqueles filmes - alguns, não todos. Queria conhecê-los todos, queria ter a oportunidade de contextualizar, de entender o Brasil dos cineastas marginais. Quer fazer agora a mesma coisa com Leila. Quer saber como ou de que maneira o mito sobrevive. O que Leila representa para as mulheres de hoje? A grávida que vai hoje à praia de biquíni talvez não saiba, mas foi Leila, com sua coragem e irreverência, que enfrentou o puritanismo, em plena era da ditadura, para que ela possa expor ao sol sua gravidez. O livro, Puppo imagina, terá 112 páginas, em papel de boa qualidade e será fartamente ilustrado. As fotos vão trazer a Leila a que o público está acostumado - grávida, na praia, como musa da Banda de Ipanema - e também imagens nunca vistas, que ele terá oportunidade de garimpar, nos próximos dias, no baú de Janaína, a filha que Leila esperava quando se deixou fotografar ao sol, com aquela barriga de quem já está prestes à dar luz a um bebê. Fotos, muitas fotos. E filmes. E depoimentos. Puppo quer lançar o foco sobre Leila e sua época. Ela foi achincalhada, por seu compartamento, pelos jurados do programa Quem Tem Medo da Verdade?, na extinta TV Record. Rompeu em lágrimas quando eles a chamaram de imoral e disseram que jamais poderia ser uma boa mãe. O programa era apresentado por Flávio Cavalcanti, cujo reacionarismo foi exposto num livro sobre o polêmico apresentador. Nesse livro, Cavalcanti é pintado como o demo, mas ele tinha lá suas contradições. O homem que fez achincalhar Leila Diniz em seu auditório abrigou-a depois, em sua casa, quando ela esteve na mira dos órgãos de repressão da ditadura militar. Tudo isso vai ter de voltar, nesse imenso debate que Puppo pretende realizar no ano que vem. Seu fascínio pela figura é incondicional. Leila representa, para ele, "a" mulher. É o que já está expresso no título do filme de Domingos de Oliveira. Leila, sozinha, representa todas as mulheres do mundo. Enquanto ela revolucionava as mulheres do Brasil, nos anos 60, o homem estava pisando na Lua e a pílula liberava o comportamento, instituindo o sexo livre. Leila assumiu e resumiu tudo isso. "Foi a nossa feminista-mor, sem manifesto algum", diz Puppo. "Seu manifesto era a maneira como ela vivia, sem medo de ser feliz." É o que Ruy Castro, que conheceu Leila Diniz e escreveu um livro sobre Ipanema, onde ela foi musa, não se cansa de dizer. A posteridade fabricou uma imagem e um mito de Leila que a própria Leila talvez não gostasse. Pois o que ela gostava mesmo era de viver. Nunca quis ser uma feminista, uma Joana D´Arc da revolução sexual. Queria ser Leila. Há urgência na busca desse co-patrocínio. Para que o evento Leila para sempre Diniz possa estrear em março, daqui a três meses, muita coisa terá de ser feita rapidamente. Puppo sonha alto. Imagina dispor de meios para entregar as fotos de Leila a artistas plásticos para que eles criem em cima delas, oferecendo ao público a releitura da imagem de Leila para o 3.º milênio. Os interessados podem ligar para (0--11) 3257-5330 ou então comunicar-se com ele pelo e-mail hecoproducoes@uol.com.br.

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