Europa elege "Adeus, Lênin!" melhor filme do ano

Wolfgang Becker queixa-se com orepórter da Agência Estado: como pode se concentrar no projetodo próximo filme se não param de lhe pedir entrevistas portelefone? Agora mesmo, ele deveria estar sentado ao computador,tentando sistematizar as novas idéias. Queixa-se e, ao mesmotempo, diz que não pode deixar de falar com os que o procuram."É muito gratificante saber que você fez um filme na Alemanha eaí no Brasil tem gente querendo conversar sobre ele." Adeus, Lênin! está em cartaz na cidade. Na mostracompetitiva do Festival de Berlim, em fevereiro, ganhou o prêmioAnjo Azul, em homenagem ao clássico de Josef von Sternberg, comomelhor filme europeu do ano. Há dois meses esteve em São Paulo,exibindo Adeus, Lênin! na Mostra Internacional de Cinema. Devolta à Alemanha, viu agora, há coisa de três semanas, a obraser confirmada no Félix, o grande prêmio do cinema da Europaunificada, como melhor filme do ano. O diretor conversa pelo telefone com o repórter. "Nãoimaginava que pudesse receber aquela acolhida em São Paulo. Meufilme foi um dos preferidos do público e, em todo lugar aonde iacom Leon e Renata (refere-se a Leon Cakoff e Renata de Almeida,organizadores do evento), havia sempre gente querendo relatarsuas experiências com o comunismo." E a surpresa de Becker eraporque, afinal de contas, o Partido Comunista nunca esteve nopoder no Brasil. Há em Adeus, Lênin! um tipo de humor que eleachava que só quem viveu sob o comunismo poderia desfrutar. Aidéia do filme lhe veio como uma brincadeira, quando pensava emrefletir sobre a Alemanha atual, dez anos depois da queda doMuro. Imaginava o que aconteceria com uma pessoa que tivesseficado fora do ar por um tempo, como a Bela Adormecida dahistória para crianças. E surgiu, assim, a história da mãecomunista, na antiga Berlim Oriental, que entra em coma eressurge dez meses depois. Durante este tempo, ocorrem o colapsodo comunismo e a queda do Muro de Berlim. "Essa mulher é umacomunista sincera e seu filho preocupa-se com a saúde da mãe etenta fazer com que ela creia que ainda vive sob o comunismo." Poderia ser uma só piada esticada e o desafio de Beckere seu parceiro, o roteirista Bernd Lichtenberg, foi construir umroteiro enriquecido por observações humanas e não apenasideológicas. "Para mim, é o que explica o sucesso do filme empaíses como o Brasil. A ligação filho-mãe é muito forte, éuniversal. Afeto e problemas familiares existem sob todos osregimes." Foi para ele uma felicidade o imensa o fato de o Félixhaver confirmado o prêmio de melhor filme europeu do ano paraAdeus, Lênin! e ainda lhe haver dado os prêmios de direção,roteiro e ator (para Daniel Bröhl). É sucesso para ninguém botardefeito, mas Becker se arrisca dizer que ficou faltando o prêmiode melhor atriz para Katrin Sass, uma grande dama do cinema,teatro e televisão na Alemanha. "O filme dependia muito da química entre Daniel e ela.Foram magníficos. Se não houvesse essa interação dos dois, nadateria funcionado." A consagração que Adeus, Lênin! colheatualmente o recompensa de todo o tipo de dificuldade que Beckerenfrentou durante a rodagem. Problemas de dinheiro, de tempo,doenças de atores - ele chegou a pensar que não conseguiriaconcluir o filme. Os produtores achavam bobagem investir muito dinheiro nareconstituição de um passado tão recente. "Diziam que ninguém ianotar, mas a Alemanha mudou tanto, carros, ambientes, semáforos,que a reconstituição fez-se necessária, sim." Sua maiordificuldade é para falar sobre a metáfora contida em Adeus,Lênin!. A mãe que ressurge do coma é, obviamente, a pátria, aAlemanha. "Obviamente? Esse é o tipo de coisa no qual não sepensa. Não nos dissemos, Bernd e eu, vamos construir umametáfora. Seria muito pretensioso de nossa parte, mas o filmeresultou uma metáfora porque todos vocês, jornalistasestrangeiros, vêem o filme desta maneira. O que nos interessavaera a situação humana." Está contente com o colapso docomunismo? "Oh, você sabe, é impossível ser nostálgico de umregime tão duro e repressivo, mas o comunismo de alguma formaimpunha um limite à expansão capitalista. Passaram-se só dezanos e este mundo consumista não deve ser visto como motivo deorgulho para ninguém, exceto pelos que se beneficiam dasituação." Quem sabe é o tema para o próximo filme? "Pode ser, se algum dia conseguir escrevê-lo", Becker diz.

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