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'Euforia', de Valeria Golino, retrata distância entre irmãos muito diferentes

Em entrevista ao 'Estado', diretora fala sobre o processo de produção do filme, que abre a Festa do Cinema Italiano nesta quarta, 7

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 19h21

Há cinco anos, quando veio inaugurar outro festival de cinema italiano no Brasil, Riccardo Scamarcio era companheiro da atriz Valeria Golino, que estreava como diretora, e ele havia produzido Mel. Anos antes, Scamarcio estrelara O Paraíso a Oeste, longa de Costa-Gavras que abordava a delicada questão dos imigrantes. Nesta quarta, 7, outro filme de Valeria Golino como diretora – Euforia – inaugura para convidados a 8 ½ Festa do Cinema Italiano no Espaço Itaú de Cinema, às 20h.

Scamarcio lidera o elenco, mas não é mais o companheiro de Valeria – “É meu irmão intelectual, minha alma gêmea sensível”, ela informa numa entrevista por telefone.

Valeria desculpa-se por não estar em São Paulo esta noite. Está escrevendo o próximo filme como diretora, mas não é o que a prende na Itália. “Estou em pleno processo de lançamento de três filmes que estarão no Festival de Veneza”, ela conta. O repórter brinca que ela será a ‘regina’ do Lido. “Não, não, a rainha, não. Sou mais uma operária do cinema, uma trabalhadora.” O curioso é que um desses três novos filmes de Valeria como atriz é assinado por... Costa-Gavras! Aos 86 anos, o importante autor de obras como Z, A Confissão Missing estará em Veneza, fora de concurso, com Adults in the Room. “É um mestre, e de um tipo de cinema, o político, que está em falta neste momento. Costa, Elio Petri, Francesco Rosi, Damiano Damiani são parte da História.”

A Festa do Cinema Italiano deve atingir este ano 16 cidades. Realiza-se em São Paulo (e Rio, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Niterói, Porto Alegre, Recife) de 8 a 14, prosseguindo de 15 a 21 nas demais praças (Belém, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Londrina, Natal, Salvador, Vitória). Valeria a inaugura com seu segundo longa como diretora. Em 2013, com o primeiro, Miele, integrou a seleção oficial de Cannes, na mostra Un Certain Regard. Com Euforia, voltou a Um Certo Olhar, no ano passado. Conta que o segundo filme é sempre mais difícil, mas sente que passou pela prova. “Foi um set muito tranquilo, cercada de pessoas que amo, com Riccardo atuando e amigos queridos na equipe técnica.” Muito importante – “Acho que amadureci como diretora. Tenho mais consciência de meus meios, das histórias que quero contar.” Euforia conta a história de dois irmãos. Um extrovertido – sexo, drogas e rock’n’roll (ela ri da definição do repórter). O outro, mais amargo, sarcástico. Afastaram-se, e agora Scamarcio, o primeiro, descobre que Valerio Mastrandea está gravemente enfermo.

“Embora a história não tenha ocorrido comigo, nem com ninguém da minha família de sangue, ocorreu com pessoas muito próximas, meus amigos. E, depois, família, doença, tudo o que afasta e aproxima as pessoas, são temas universais, de fácil identificação.” Como diretora/autora, acrescenta que a escolha dos atores foi decisiva na construção dos personagem. “Com Riccardo e Valerio eu já tinha uma dinâmica muito forte. Ambos são atores potentes, que dominam a cena. Chegaram cheios de vontade, com os personagens à flor da pele. E o filme é muito bem escrito. Não inicio a filmagem sem ter um roteiro que me pareça sólido. Roteiro e elenco me deram segurança no set, mas é claro que a filmagem é sempre uma aventura. Muda-se muita coisa, ocorrem imprevistos. Você escreve uma cena solar, e o tempo não ajuda. Esses imprevistos ocorrem e precisam ser integrados, mas como? Você tem de se sentir segura para mudar, pelo menos comigo é assim.”

Euforia foi muito bem de público e crítica na Itália, o que, até certo ponto, foi uma surpresa. “O mercado está formatado para os blockbusters, tenho certeza de que no Brasil é a mesma coisa. O público não tem mais o hábito de ver os filmes italianos como antigamente. Já tivemos os maiores diretores do mundo, mas não adianta chorar esse passado. É preciso tentar cativar o público com novas histórias.” É o que faz a nova edição da Festa do Cinema Italiano, com novos filmes de Valeria, Paolo Virzi. Isso sem falar na versão restaurada de A Melhor Juventude, que está trazendo à cidade o diretor Marco Tullio Giordana para a abertura desta noite, para apresentar seu filme (em duas partes) na 5.ª e 6.ª, no Espaço Itaú Augusta, e para uma masterclasss no mesmo lugar, às 11h de quinta, 8

Destaques da Festa do Cinema Italiano

  • Bangla. De Phaim Bhuiyan, as desventuras amorosas de um descendente de imigrantes de Bangladesh narradas em ritmo de comédia
  • Desafio de Um Campeão. Amizade e companheirismo no futebol, com Stefano Accorsa.
  • Entre Tempos. A reflexão poética, pelo diretor Valerio Mieli, sobre um amor nunca esquecido.

    O clássico de Marco Tullio Giordana de volta, restaurado, 40 anos de história da Itália vistos pela relação entre dois irmãos.

  • O Melhor da Juventude.
  • Noite Mágica. De Paolo Virzi, três jovens roteiristas são suspeitos da morte de um produtor.
  • Sílvio e os Outros. O mundo Berlusconi visto por Paolo Sorrentino.

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