EUA repreendem Disney por novo filme

A Disney está tendo que lidar com um de seus maiores problemas diplomáticos dos últimos meses. Um dos estúdios ligados à empresa, a Touchstone Pictures, está lançando esta semana uma das comédias mais estapafúrdias do ano: Bubble Boy, em que o personagem principal é um "menino da bolha". A idéia de fazer graça a partir de um personagem que sofre de imunodeficiência primária caiu como um tijolo no estômago dos norte-americanos - e várias campanhas de protestos começam a circular pelo país.O incidente mostra o quanto a velocidade da circulação de informações atualmente ajuda a onda de correção política dos Estados Unidos. O filme só chega nos cinemas na próxima semana, mas os anúncios e o web site oficial de Bubble Boy foram suficientes para dar arrepios nas famílias de crianças e adolescentes que sofrem da doença - que chegam a 500 mil em todo o país.A última vez que Hollywood abordou a questão das crianças que têm de viver confinadas em um mundo esterilizado foi no telefilme The Boy In The Plastic Bubble, de 1976, estrelado por um ainda desconhecido John Travolta. No dramalhão, ele fazia o papel de um rapaz que tinha de escolher entre continuar vivendo em seu mundo sem germes ou conquistar o amor de sua vida uma vizinha que ele conhecia desde criança, e morrer em pouco tempo.Road Movie da bolha - A história de Bubble Boy é praticamente a mesma: o novato Jake Gyllenhaal faz o papel de um menino da bolha que resolve ir atrás da garota amada para tentar evitar que ela se case. A partir daí, as piadas mais infames do ano - sempre usando a bolha de plástico como ponto de partida - vão se amontoando em um roteiro nada brilhante. Para completar a incorreção política, o elenco é completado por Verne Troyer, o anão que ficou conhecido como o Mini Me, da série Austin Powers.Se para o público em geral o filme já não tem graça, para as famílias de crianças que sofrem da condição, é uma piada de mau gosto. Em uma época em que até Mr. Maggoo gerou reclamações de associações de deficientes visuais, é curioso que a Disney, sempre preocupada com sua imagem "familiar" não tenha pensado duas vezes antes de distribuir a fita.A mãe do menino que inspirou o filme de John Travolta, com o apoio da Immune Deficiency Foundation, começou uma campanha pedindo que o estúdio cancele a estréia. No web site da instituição há a cópia de uma carta enviada para Michael Eisner, o chefão da Disney. "Este filme não é só ofensivo, é aterrorizante", diz o texto. "Vocês estão apelando para um público imaturo que daria risadas de pessoas que sofrem de síndrome de Down ou de pacientes de câncer fazendo quimioterapia."Paralelamente, um outro casal está enviando cartas a jornais e revistas e pretende fazer um protesto na frente de salas de cinema e promover uma entrevista coletiva em Nova York sobre o assunto. O estúdio, por sua vez, vem se esquivando com afirmações como: "O filme não tem intenções malignas, é apenas uma comédia que usa a bolha como cenário." Mais chocante ainda é o desfecho da história: o garoto do filme fica sabendo que não sofre da imunodeficiência - sua mãe superprotetora e estabanada resolveu colocá-lo na bolha para mantê-lo perto de casa! O executivo que aprovou este roteiro deve estar esvaziando suas gavetas neste momento.

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