"Eu Tu Eles" testa sucesso na bilheteria

Quando Andrucha Waddington, 30 anos, filmava Eu, Tu, Eles não podia imaginar que seu filme iria fazer tanto sucesso. Apesar de estar estreando hoje em circuito comercial, muitos brasileiros já ouviram falar na produção que conta a surpreendente história de uma mulher que vive com três homens na mesma casa. "Em vários momentos pensei que o filme não teria público", desabafa. Ainda não é possível fazer o cálculo da bilheteria mas a Columbia Pictures está apostando alto na estréia do filme em circuito nacional. Eu, Tu, Eles está sendo lançado em todo Brasil com mais de 90 cópias. No total, foram gastos mais de R$ 1 milhão em marketing, que incluiu pré-estréias pelo país e propaganda. A grande ironia é que Andrucha não pensava chegar tão longe. "Eu nunca me preocupei se meu filme ia ser comercial ou não. Acho que o tema é que gerou o interesse nas pessoas."A idéia de filmar Eu, Tu, Eles começou em 1995. Andrucha assistia a um programa de televisão quando ficou encantado com a história verídica de uma mulher que viveu vários anos sob o mesmo teto com três maridos. O diretor percebeu que dali podia surgir um grande roteiro para o cinema já que era incrível que uma mulher conseguisse manter aquela situação em um país tão machista. Poucos dias depois, pediu para que a roteirista Elena Soárez o acompanhasse até o sertão do Ceará para investigar a história. O roteiro demorou 4 anos para finalmente chegar ao formato ideal. As filmagens foram realizadas entre junho e julho de 1999, no sertão da Bahia. Em 1998, o roteiro do filme foi selecionado para Seminário de Roteiros Sundance/RioFilme. "Foi muito bom porque cinco profissionais da área avaliaram o trabalho. Tivemos várias visões sobre a história. A partir daí pudemos escolher para que lado seguir", conta Andrucha.O trabalho foi árduo, mas o diretor já está desfrutando o reconhecimento de seu esforço e talento. Em maio, Eu, Tu, Eles recebeu uma menção especial da Fondation Gan Pour le Cinema que destacou dois títulos da Un Certain Regard, uma mostra paralela do 53º Festival de Cinema de Cannes. "Não esperávamos aquela recepção. Nunca tínhamos exibido o filme para mais de 12 pessoas antes. Fomos aclamados. As pessoas aplaudiram de pé por mais de oito minutos", lembra Andrucha. Em julho, o filme obteve mais um êxito internacional. No 35º Festival de Karovy Vary, da República Theca, a história do diretor brasileiro ficou com o Globo de Cristal de Melhor Filme e Regina Casé, protagonista do filme, recebeu o prêmio de melhor atriz. "É um festival muito importante na Europa. Esse prêmio deu uma repercussão muito boa para nosso filme no mercado europeu", analisa.Com o sucesso internacional, começaram a surgir as inevitáveis comparações de Eu, Tu, Eles com Central do Brasil, de Walter Salles. Mas Andrucha acredita que quase não há semelhanças entre os dois filmes. "Na verdade, eles são completamente diferentes. O Central é um filme urbano que se transforma em um road movie. O único ponto parecido é que uma parte de Central se passa onde Eu, Tu, Eles acontece o tempo todo: no sertão", diz.Eu, Tu, Eles não mostra o Brasil de todos nós mas um parte específica dele. Regina Casé interpreta Darlene, a mulher que consegue administrar com sucesso uma relação com três homens ao mesmo tempo. Seus "maridos" são interpretados por Lima Duarte, Stênio Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos. O filme alterna momentos engraçados com drama. O final foi decidido depois que as filmagens começaram. Quem resolveu o problema foi Fernanda Torres, mulher de Andrucha. A atriz chegou até a gravar algumas cenas para o filme. Ela participava de um prólogo, ao lado de Matheus Nachtergaele, que posteriormente foi descartado pelo diretor. "Quando montamos o filme precisamos aprender a jogar fora o que não serve. Esse prólogo não estava acrescentando em nada e estava deixando a história muito longa."A escolha de Regina Casé para o papel de Darlene surgiu de uma forma inusitada. Ela nunca havia sido protagonista de um filme e sempre foi conhecida por seu talento cômico. Mesmo assim, Andrucha afirma que o nome da atriz foi o primeiro que lhe passou pela cabeça. Mas teve a certeza da escolha quando um dia a roteirista Elena Soarez pegou um táxi e contou a história ao motorista. Sem pensar muito, ele retrucou "esse é um papel para a Regina Casé". A partir daí a escolha virou definitiva.Eu, Tu, Eles, que custou R$3,7 milhões, tem grandes chances de ser escolhido para ser o representante brasileiro na disputa ao Oscar. Até agora, é o filme brasileiro que mas vem agradando no cenário internacional e, com certeza, é também o mais comentado. Andrucha fala sem problemas sobre o assunto mas prefere não se empolgar ainda. "No momento, não estou pensando no Oscar. Estou pensando apenas no lançamento do filme. Se por acaso ele for selecionado para representar o Brasil, então nós vamos fazer o possível para que ele seja indicado".A expectativa de quem vai assistir a Eu, Tu, Eles é tentar entender como a relação de Darlene com seus três maridos pode funcionar. É complicado administrar uma relação convencional mas não se deve esperar fórmulas mágicas no filme. Andrucha admite que o filme trata das regras que a vida impõe e que é necessário se adaptar a elas para tentar ser feliz. "A felicidade é um estado imaginário, não é um estado absoluto. Os quatro personagens passam por várias situações mas acredito que todos têm seu momento de felicidade", explica.O mais surpreendente dessa história toda é que Andrucha Waddington está apenas começando sua carreira como diretor. Antes de Eu, Tu, Eles, ele havia filmado apenas outro longa-metragem, Gêmeas, inspirado no conto de Nélson Rodrigues. Apesar do sucesso repentino, Andrucha não pensa em sair da Conspiração Filmes, produtora que mantém com os amigos Leonardo Monteiro de Barros, Pedro Buarque de Hollanda, Cláudio Torres, José Henrique Fonseca, entre outros. Por enquanto, a carreira solo está definitivamente fora de seus planos. "Não tenho vontade de sair da Conspiração. É a minha produtora e estou muito feliz lá."

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