'Eu não sou muito de esperança e de sonhos'

'Eu não sou muito de esperança e de sonhos'

Diretora de 'Que Horas Ela Volta?' fala sobre as chances do filme no Oscar

Entrevista com

Anna Muylaert

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2015 | 08h38

Diretora do filme brasileiro indicado ao Oscar falou com exclusividade ao Estado sobre a estratégia que adotará para fazer com que o filma 'Que Horas Ela Volta?' possa conquistar a Academia e o mercado norte-americano. Confira também os trailers de filmes que foram conduzidos pela diretora.

O que vocês estão acertando em relação a estratégia de divulgação do filme nos Estados Unidos para o Oscar?

Lá fora a gente está começando a fazer as reuniões para entender o que é necessário fazer. Já estamos em contato com uma publicista muito importante, que irá organizar uma estratégia para o filme e vai mandar um orçamento para gente. Estamos em contato com o distribuidor americano. O meu produtor aqui (Fabiano Gullane), eu e Regina (Casé) vamos ver esse orçamento e decidir o que faremos, já que o dinheiro que a Ancine (Agência Nacional do Cinema) irá repassar não vai dar para cobrir os custos da campanha do filme nos Estados Unidos. O que já sabemos é que teremos que levantar um pouco mais da metade do dinheiro. Vamos fazer as estratégias normais, que é fazer as sessões lá, anúncios, entrevistas, ou seja, uma campanha padrão.

Você tem ideia do custo dessa campanha de divulgação?

Olha, não sei ainda direito, por isso, não posso te falar. Mas ouvindo vários lados, o dinheiro da Ancine não vai dar para fazer essa campanha de divulgação nos Estados Unidos. Como nossa indicação é pelo País, vamos usar esse apelo do Brasil para levantar a grana necessária que falta.

Vocês vão tentar levantar o dinheiro com quem?

A gente ainda não sabe exatamente, mas será desde órgãos federais, empresas privadas e outras fontes que tenham interesse.

Qual a sua perspectiva em ficar pelo menos na lista dos nove pré-selecionados do Oscar de Filme Estrangeiro?

Eu não sou muito de esperança e de sonhos, mas falando lá com os americanos eles têm muita confiança que o filme chegue na lista dos cinco (que disputam a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro), ou seja, eles já esperam que o filme seja nominado. Conversei com Daniel Ribeiro, diretor de 'Hoje eu quero voltar sozinho', nosso representante no Oscar deste ano (o filme não ficou nem entre os nove pré-selecionados), ele acha que por estarmos nas listas de filmes com potencial de figurar entre os cinco nominados ao Oscar de Filme Estrangeiro, antes mesmo da campanha de divulgação do filme nos Estados Unidos, já é um dispositivo favorável para gente.

 

Qual o grande desafio que vocês terão lá nos Estados Unidos?

É que os caras vejam o filme para poder votar nele (o Comitê composto por membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood). Como nosso filme já está em todas as listas de previsão, todo mundo lá sabe que o filme existe. A gente está com 96% de críticas positivas na imprensa americana, segundo o site Rotten Tomatoes, especializado em tabular todas as críticas positivas e negativas que saem na imprensa americana. Esse número é bastante alto para o site. O mercado americano sabe que nosso filme existe e isso nos deixa otimistas. Agora isso também não é garantia de nada. 

Seu filme tem uma trajetória parecida com 'O som ao redor', do Kleber Mendonça filho, que fez uma carreira internacional de sucesso para depois entrar em cartaz no Brasil com excelentes críticas. O filme do Kleber foi nosso representante a uma pré-vaga do Oscar de 2014, mas não entrou na lista dos nove. Isso a deixa apreensiva?

Os americanos falaram que 'O som ao redor' agradou em Nova York, mas não agradou tanto em Los Angeles, pois eles acharam que o filme não emociona muito, consideraram cabeça demais. Segundo os analistas americanos, ele não entrou (na lista de nominados ao Oscar de Filme Estrangeiro) por causa disso. E segundo esses mesmos analistas, o meu filme tem mais chances, pois teve boa repercussão tanto em Los Angeles como em Nova York e é um filme emotivo, que vem agrandando o público em Los Angeles, com sessões esgotadas, inclusive com aplausos calorosos no final da projeção do filme. 

Na sua opinião, por que o filme vem pegando tanto o público quanto a crítica em lugares com culturas bem diferentes?

Ele vai para dois lados simultaneamente, de um lado é um filme crítico, o que agrada a crítica especializada e do outro lado tem essa relação entre mãe e filha, que é universal e pega as pessoas pelo coração. O filme pega pela cabeça e pelo coração.

Quem sugeriu o título em inglês 'The second mother?'

Eu que sugeri para o mercado internacional os três opções de títulos, além desse que eles escolheram, 'A segunda mãe', tinha 'Quase da família' e 'A volta da filha'. Gostei da escolha, tinha uma predileção por 'A segunda mãe'.

O filme foi muito mal na primeira semana de exibição, com uma pequena melhora na segunda, tendo levado em torno de 60 mil pessoas aos cinemas. O que aconteceu na sua avaliação (o filme que estreou em 27 de agosto entrou para quarta semana em cartaz)?

A primeira semana foi decepcionante, sendo visto principalmente nos grandes centros, pelo público elitizado, mais cultural,ficando aquém nas periferias. Nosso filme não tem o perfil das comédias da Globo Filmes, com elenco global, apesar de ter Regina Casé. Não tivemos investimento de lançamento para filme com marca popular, já que pela história e pela atriz temos esse perfil. Mas já sabia que não iriamos estourar. Então, a mim não decepcionou. O público mais amplo não ficou sabendo do filme na primeira semana em cartaz. O Inácio Araújo [crítico da Folha de S. Paulo] escreveu um texto chamado “Marketing ou Morte”, que diz o seguinte: se você não tiver cartaz no ônibus, no ponto do ônibus, em outdoors, não estiver sendo bombardeado de anúncios na Globo, seu filme não é visível para o grande público. Apesar das chamadas que tivemos na Globo e dos programas que eu e Regina Casé participamos, mas não tínhamos dinheiro para gastar com anúncios. Só para efeito de comparação, o filme 'Linda de Morrer' (comédia protagonizada por Glória Pires, que já levou mais de 800 mil pessoas aos cinemas) teve todas essas mídias. O que aconteceu para o aumento de público da primeira para segunda semana e agora para terceira foi o boca a boca e as redes sociais. Hoje estamos sem anúncio em lugar nenhum, pois acabou a pequena verba que tínhamos disponível para isso. Agora as redes sociais ajudaram muito, eu recebo a cada dois minutos mensagem a respeito de impressões do filme. 

Que tipo de mensagem você recebe pelas redes?

São relatos elogiosos e super apaixonados pelo filme. Essas pessoas assistem o filme e depois levam as mães, os amigos, os parentes para verem também.

Muita gente achou que pelo fato de ter Regina Casé como protagonista o seu filme bombaria nos cinemas, mas esqueceram que a comédia Made in China, dirigida pelo seu marido Estevão Ciavatta, e lançada no final de 2014, foi um retumbante fracasso de público, agravado pelo fato de ser uma comédia com um amontoado de clichês e linguagem televisiva...

Olha, ninguém falou exatamente isso, porque eles (os filmes) concorrem em searas bem diferente. O filme dela foi desenhando para ter um enorme sucesso e tinha todas as mídias que atingem o público mais amplo, mas de fato foi um fracasso. O nosso filme não está sendo um fracasso e o que está levando o público aos cinemas é o filme em si, que as pessoas amam e não podemos esquecer que o nosso filme tem valor político.

Quais as histórias mais curiosas que você foi colhendo das pessoas que viram o filme?

Uma bem interessante foi de uma empregada que depois do filme chegou para a patroa e pediu demissão, ela disse que o filme tinha despertado nela insatisfação pelas humilhações que passava. Mas voltando a pergunta anterior, a Regina Casé pode não ter levado público para vê-la, mas está encantadora no filme, o que ajuda muito a empatia do público por ele.

Uma das poucas críticas negativas em relação a 'Que horas ela volta?' dizia que era o seu filme mais arriscado (Anna já dirigiu três longas-metragens: 'Durval discos', 'É proibido fumar' e 'Chamada a cobrar' e o ainda inédito 'Mãe só há uma')  porque abria algumas concessões, como se você tivesse cedido para atrair mais público...

Eu não concordo absolutamente com essa crítica, ela é uma interpretação política, porque quando fala que abri concessões, ela está falando do final esperançoso do filme. Não fiz esse final com esperança no sentido de concessão, pelo contrário, lutei dentro de mim com um touro para encontrar um final que desse esperança para essa personagem (a da empregada Val, interpretada por Regina Casé), o clichê dela seria dar tudo errado, que estaria, digamos, dentro de finais de filmes de arte, aí certamente se diria que não fiz concessões. Ao contrário dessa crítica, o maior crítico do jornal El País, que me encontrou na Espanha, em Madri, para fazer uma pergunta. Ele disse: “Seu filme é muito bom ao mostrar empegadas domésticas, como já foi mostrado em outros filmes, mas mostrou de uma forma bem diferente, pois nos últimos quinze minutos o filme é muito subversivo, ele é uma bomba!”. Eu disse para ele: “Ainda bem que você está percebendo isso”. O que essa crítica negativa percebeu como uma concessão, esse crítico do El País entendeu como uma força poderosa do filme e eu concordo com o crítico espanhol. Se, por exemplo, essa empregada tivesse tido um acidente e ido parar no IML no final, eu não estaria abrindo concessão? Entendo que com isso, estou repetindo o discurso vigente. Não fiz esse filme pensando em atrair mais público, pode ter certeza. Nunca em nenhum momento fiz concessão, tanto é que a linguagem dele é de cinema, não é de tevê, tem Regina Casé totalmente camaleoa como empregada, que muito gente não a reconhece, só tenho atores desconhecidos, não é um filme apelativo, então, só tenho que discordar cem por cento desse tipo de crítica.

Uma fotografia interessante de empregada doméstica no cinema nacional é mostrada em 'Domésticas, o Filme', de Fernando Meirelles e Nando Olival, construída de forma mais verossímil que a empregada da Regina Casé, bastante ingênua e passiva. Você acha que ainda existem empregadas assim no Brasil de hoje, principalmente depois da ascensão da nova classe “C” e as conquistas trabalhistas que elas tiveram?

 Acho que ela, de fato, espelha uma empregada mais antiga, na casa dos 60 anos, tanto é que a outra faxineira mostrada no filme, que é mais nova e mora em casa [a empregada Val mora na casa dos patrões] e a Jéssica [que faz a filha de Val, personagem de Camila Márdila, já é outra coisa. Acho que você não vai encontrar uma [empregada] jovem como a Val, concordo com você, mas ainda podemos encontrar tipos como a Val em empregadas mais velhas. De fato essas mudanças econômicas e sociais dos últimos anos pegaram as empregadas mais jovens, hoje não se produz mais empregadas como a Val, com certeza não, ela é um bicho em extinção, mas ainda têm algumas por aí, conheço inclusive.

O que seu filme tem mais de singular em relação ao cinema que se faz no país, que destacaria?

Se você analisá-lo como dramaturgia, ele é um filme clássico, ao contrário, por exemplo, do filme O som ao redor, que é mais moderno narrativamente falando. Mas meu filme usa desse instrumento de cinema clássico para falar de uma questão política importante e forte. Tem coisas no filme que gera visões bem antagônicas. Enquanto recebi mensagens de pessoas que adoraram a personagem da Jéssica, o crítico Inácio Araújo no seu quarto texto sobre o filme diz que a personagem da Jéssica é m entojo, é mal educada, é nojenta. Se você entrar nessa discussão vai encontra opiniões bem antagônicas. Agora eu pergunto: Se ela tivesse vindo de Paris, fosse uma amiga de Paris, continuaria sendo um entojo? Talvez não. Ela não faz nada demais, apenas não age de acordo com o que as pessoas esperariam dela.

Colocar a personagem da Jéssica vindo do nordeste, oriunda de uma família pobre e sem instrução, para prestar vestibular para USP e passando, pelo menos na primeira fase do vestibular, é algo bastante improvável, infelizmente. O que seria provável no Brasil de hoje seria ela prestar vestibular para faculdades particulares que tem aos montes, com seu ensino de baixa qualidade. A mudança  social em decorrência de melhor educação ainda é algo em distante no País...

Eu concordo. Mas o filme abre justamente essa discussão, que na Europa se debate muito, que é a questão educacional brasileira, que é muito ruim. O filme abre a discussão, que não está resolvida, pelo contrário. Essa mudança virá de fato pela educação de qualidade para todos, quando chegarmos aí, será outro país.

Foi fácil trabalhar com Regina Casé?

Não foi fácil trabalhar com ela, que tem uma personalidade extremamente forte, questionadora, inteligentíssima, então, fácil não foi, mas foi muito recompensador e positivo, a considero um gênio e uma das grandes parceiras que tive ao longo desses trinta anos de carreira. As grandes parcerias geralmente não são fáceis, porque trabalhar tranquilamente não resulta em boa coisa, brincadeira (risos). Falando sério, sei que ela não é uma pessoa muito fácil, mas foi uma grande parceira.

Se a Regina Casé não tivesse aceitado o convite para o filme, por algum motivo, Glória Pires poderia ter sido uma opção (a atriz foi protagonista de outro filme da diretora É proibido fumar)?

Glória não tem physique du rôle (adequação para o papel) da empregada, a Regina tem. Acho que a Regina numa figura só simboliza a mistura de raça brasileira, o negro, o índio e o branco. Se ela não aceitasse iria procurar uma atriz desconhecida nordestina, mas nunca pensei em outra atriz para o papel.

 

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