Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Eu não quero fazer panfleto político', diz Wagner Moura

Diretor comenta polêmica envolvendo seu longa 'Marighella', atual momento do Brasil e seus futuros projetos

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

01 de novembro de 2021 | 05h00

Wagner Moura sabe o que é polêmica. Seu Capitão Nascimento de Tropa de Elite, dirigido por José Padilha, foi alvo de debates, discussões acaloradas, artigos inflamados. “Isso é bom. É democrático”, disse ele, em entrevista ao Estadão, em um hotel em São Paulo. “Mas, naquela época, ninguém tentou embargar o filme.” 

Com Marighella, seu primeiro longa-metragem como diretor, que finalmente chega ao Brasil dois anos e nove meses depois de sua première mundial no Festival de Berlim, foi diferente. “Dirigir foi muito prazeroso”, afirmou, sobre o filme que tem pré-estreia a partir desta segunda, 1º, e lançamento oficial na quinta, 4. “O mais difícil foi enfrentar o extracampo, o fascismo, os ataques, a violência, a falta de grana. Nunca a gente teve paz. Hoje, estão dando nota baixa no IMDb sem ter visto. Não para. É o governo federal atacando.”

O filme sobre Carlos Marighella, que pegou em armas para resistir à ditadura militar, teve negados vários pedidos de comercialização junto à Ancine. A pandemia contribuiu ainda mais para o atraso de seu lançamento. Mas as pré-estreias em Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo na semana passada deixaram Wagner Moura cansado, porém energizado a brigar pelo que fez. “Não tenho medo. Só acho triste”, disse. “Por um tempo fiquei pensando: ‘Caramba, fiz um filme polêmico’. Mas hoje tenho consciência absoluta de que toda essa história tem mais a ver com o tempo que vivemos do que com o filme.” 

Wagner Moura tinha vontade de dirigir, mas não imaginava que seria algo da magnitude de Marighella, uma produção cheia de cenas de ação, mas que abre espaço para os momentos de dúvida, de contestação, de leveza, de humanidade. “Eu me interesso pelas pessoas. Todos os personagens, todos os guerrilheiros, estão vivos na tela, são pessoas com conflitos”, disse. “Se não, viraria vetor de um panfleto político. E quem quer ver isso? Eu não quero.” 

Hino

O ator e diretor nasceu em 1976, no meio da ditadura militar e após o assassinato de Marighella pelas forças de repressão da ditadura, em 4 de novembro de 1969. Ele se lembra de cantar o Hino à Bandeira diariamente na escola, com o professor chamando o golpe de 1964 de revolução, como em uma cena do filme. “Éramos adestrados nessa narrativa”, disse. Seu pai, militar, não era muito politizado. Seu interesse por política foi chegando aos poucos. Hoje, militante pelos direitos humanos, especialmente contra o trabalho escravo, lembra-se de presenciar situações de escravização constantemente, em Rodelas, na Bahia, onde nasceu. “Eu achava que aquilo era normal”, contou. “Quando você vai crescendo, vai repensando as coisas. E aí vai dando raiva. Muito da militância vem da raiva, porque nosso País é injusto, desigual.”

Foi então que Moura começou a se interessar pelas pessoas que resistiram ou se rebelaram. Por exemplo, Carlos Marighella, baiano como ele e avô de sua amiga Maria Marighella. Foi ela quem lhe mostrou o livro Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães. Na hora, ele soube que queria ver o longa e produzir. Acabou dirigindo também. “O filme nasce da minha admiração por ele? Claro”, disse Moura. “Mas não estou aqui para defendê-lo. Marighella é colocado em xeque o filme inteiro, por todo o mundo, o tempo todo.” Em um deles, a sua companheira Clara (Adriana Esteves) diz que existem outras formas de resistência e que não admite que Marighella fale de luta armada com superioridade moral – Clara resistia à sua maneira. Tinha muita gente que não pegou em arma e mesmo assim foi torturada e morta. O diretor destaca o papel do jornalismo, tão atacado ainda hoje, e que sofria censura na época. “Assista e tire suas conclusões”, completou Wagner Moura. 

'Acho bom estar em Los Angeles, mas minha casa é na Bahia'

Boa parte do tempo em que ficou na expectativa e na briga para lançar Marighella no Brasil, Wagner Moura passou fora do País. Em 2018, ele foi aos Estados Unidos para filmar Sergio, a biografia do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello. Acabou ficando. Mas afirmar que mora hoje em Los Angeles é um passo que o ator e diretor tem dificuldades de dar. “Estou sempre morando onde estou trabalhando”, disse ele, que viveu com a família na Colômbia na época de Narcos. “Acho bom estar em Los Angeles. Mas, dentro de mim, minha casa é na Bahia.” 

Em termos de trabalho, não vê tanta diferença em estar em Los Angeles ou em Salvador, especialmente durante a pandemia. “Eu posso conhecer um diretor pessoalmente, e essa conexão pessoal ser mais interessante, mas conversei com tanta gente por zoom e foi tão igual”, disse. O que está sendo interessante é a vivência familiar de experimentar outro lugar. “Meus filhos falarem inglês, se virarem, deixarem a casa mais grossa”, contou Moura, pai de Bem, Salvador e José, do casamento com a fotógrafa Sandra Delgado. 

Houve momentos difíceis. Quando a vereadora Marielle Franco foi assassinada, ele queria estar aqui. Na pandemia, também foi dureza. Wagner Moura costuma ler diariamente todos os jornais brasileiros. “Tive momentos de angústia, vendo a tragédia no Brasil. Aí você vê o presidente falando besteira, hoje, relacionando vacina com aids. Ele tem de responder, porque é um negócio absurdo”, disse. “Eu pensava: o que estou fazendo aqui? Se é para ficar em casa, fico na Bahia.” Mas, com as fronteiras fechadas, precisou permanecer nos Estados Unidos. 

Quando a produção de séries e filmes foi retomada, ele rodou um filme com os irmãos Russo, de Os Vingadores, e uma série para o Apple TV+ chamada Shining Girls, ao lado de Elisabeth Moss. Moura pretende um dia se dirigir em um filme, mas o projeto não existe ainda. “Estou muito animado em trabalhar como ator.” Em 2022, planeja rodar o novo longa de Kleber Mendonça Filho, no Brasil. “Acho que é uma hora boa de vir”, disse.

 

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