Divulgação
Divulgação

'Eu Não Faço a Menor Ideia' e o mundo em que ninguém sabe o que faz da sua vida

Matheus Souza, por se identificar com seus personagens, é terno demais com eles

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2013 | 09h00

Como se faz um retrato geracional? Federico Fellini, Domingos Oliveira, Woody Allen – todos fizeram isso. Mas Fellini, ao retratar os adultos infantilizados de Os Boas Vidas, tinha mais de 30 anos (quase 35). Domingos era até mais jovem, tinha 30 quando fez Todas as Mulheres do Mundo. Em geral, é preciso distanciamento para ser crítico. Outra forma de se fazer retrato de geração é simplesmente colocando na tela, no palco, na música, o que se é, como se é.

É o que faz Matheus Souza. Boa parte da crítica já caiu matando sobre Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida. Não é um grande filme, mas tem a cara de seus personagens. Clara, interpretada por Clarice Falcão, é chata ou gracinha, vai depender de você. Mas não é a atriz/comediante/cantora, é a própria personagem. Rodrigo Pandolfo não fornece um leque tão amplo de opções – ele é ótimo.

Eu não Faço a Menor Ideia é sobre jovens na era da internet e no vórtice do consumismo. Diz alguma coisa que a faculdade frequentada por Clara seja num shopping – mas isso não é ficção, é a realidade – e que ela passe boa parte de seu tempo num boliche, onde conhece Guilherme (Pandolfo). Clara está fazendo medicina, mas não tem a menor certeza de que é isso que quer. Por isso mesmo, mata as aulas e fica inventando desculpas – dizendo mentiras – para os pais. Guilherme é filho do dono do boliche e trabalha numa função singular – ele deve estimular os indecisos a consumir mais.

OK, Matheus Souza não é nenhum Jean-Luc Godard, que em Masculino Feminino, nos anos 1960, uma época de intensa transformação, fez o retrato de uma geração filha de Marx e da Coca-Cola. Mas não é culpa de Matheus nem de sua geração que Marx tenha virado uma referência remota e que a Coca-Cola tenha se estabelecido como receita de felicidade. Estimulada por Guilherme, Clara inicia uma espécie de brincadeira. Ela deve imaginar qual é a verdadeira função de uma profissão, e exercitá-la, para ver se é isso que quer. Na verdade, ambos – ele e ela – estão mais certos do que não querem.

Eu não Faço a Menor Ideia transcende o retrato geracional porque é um filme sobre um mundo de incerteza. Deixe os teens de lado, pegue os adultos. O pediatra é infantilizado, o cardiologista tem o coração partido, o nutricionista (Gregório Duvivier, marido de Clarice na vida) é o maior guloso. Ninguém sabe o que faz da vida, exceto, talvez, ganhar dinheiro para consumir, e esse é o mundo real da vitória do capitalismo. Solidariedade virou tema de ficção científica, ou de Ken Loach, autor que críticos inseridos no mundo globalizado chamam de ‘anacrônico’.

O maior problema, ou a maior qualidade de Eu Não Faço a Menor Ideia é que Matheus Souza, por se identificar com seus personagens, é terno com eles. Ele teria feito outro filme, se fosse mais duro. Mas não – Clara é seu alter ego, seus mestres são Woody Allen e Judd Apatow. E, como diz Clarice no texto acima, a família é importante. Só que o filme não tem a mesma destreza ao mostrar Clara tomando café só com a mãe (uma cena boa) ou almoçandeo com os pais (e aí a cena não convence). Uma coisa é certa – se fosse hollywoodiana, essa comédia estaria atraindo muito mais gente.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.