Akson Studio
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'Eu Não Choro’ revela a força de uma adolescente diante da morte do pai

O diretor Piotr Domalewski aborda o drama de uma menina que vive uma odisseia para cumprir um rito familiar

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

21 de janeiro de 2022 | 05h00

Em seu longa anterior, Silent Night – vencedor de vários prêmios no Festival de Gdnya e no Polish Awards –, o diretor e roteirista Piotr Domalewski falou preferencialmente de homens. Dessa vez, coloca o foco numa mulher. “Meu cinema possui um componente emocional muito forte”, diz. “Achei que, para essa história, a de alguém que tem de buscar no exterior o corpo do pai que morreu, uma personagem feminina, e ainda por cima uma garota nos seus 17 anos, experimentaria maiores dificuldades. Não estou falando de vulnerabilidade, porque Ola, seu nome, é durona para a idade. Mas ainda vivemos num mundo formatado para os homens. Um garoto talvez encontrasse mais apoio. Sendo garota, o olhar sobre ela às vezes é abusivo. Mas Ola sabe se defender.”

Eu Não Choro – o título em inglês é I Never Cry – estreou no cinema. Baseia-se numa história que Domalewski testemunhou, e à qual agregou componentes pessoais. “Mais do que a história, o que me interessa é o tema. Essa história de uma garota que consegue chegar a bom termo com o pai ausente me toca de maneira particular”, conta. “A base da história ocorreu com um amigo meu, que viveu essa odisseia de buscar o corpo do pai que havia morrido no exterior. Acompanhei sua dificuldade – a burocracia é tanta que compromete o lado emocional. Vira uma missão da qual ele, e no filme ela, precisa dar conta.” 

Na trama de Eu Não Choro, Ola tem um acordo com o pai. Ele vai lhe dar o dinheiro para comprar um carro. Na cena inicial, ela faz o teste para a carteira de habilitação. Domalewski lembra: “Fui criado numa casa com muitas irmãs. Meu pai não era ausente, mas tinha vários empregos para conseguir sustentar a família. Vivia cansado. Quando chegava em casa, só o que queria era trancar-se no quarto e dormir. Então, embora estivesse ali, era como se não estivesse”. A tudo isso, o diretor soma mais uma coisa: “Nasci numa área da Polônia que enfrentava muita dificuldade. Faltavam empregos. Quase ninguém ficava ali. Os homens partiam em busca de oportunidades. Éramos chamados de euro-órfãos. Essas coisas marcam”.

Encontrar a atriz perfeita para o papel demandou trabalho. “Testei mais de mil aspirantes. As garotas chegavam em grupos. Zofia Stafiej me chamou a atenção de cara. Havia nela algo especial. Depois, à medida que os testes avançavam e o grupo ficava mais reduzido, eu comecei a saber mais coisas. Ela vinha de um lar dividido. O pai trabalhou em Dublin por um tempo, e ela o acompanhou. A mãe e o irmão ficaram na Polônia. Então ela sabia o que era o desterro familiar.” 

Domalewski insiste no tema: “Histórias de migrações, o drama dos euro-órfãos, nunca foram considerados atraentes para o público polonês. Felizmente encontrei produtores que me permitiram levar a história adiante, mas é como eu digo. Há uma diferença entre história e tema. E o tema é que minha protagonista precisa partir para o mundo para acertar as contas com seu pai e sentir-se mais próxima dele, para seguir vivendo melhor”.

O filme estreou na seção Novos Diretores do Festival de San Sebastián. “A acolhida foi muito boa, mas o mais interessante é que todo mundo reparou que Ola não para nunca, está sempre em movimento. Eu também sou assim, acelerado. Acho que terminei colocando muita coisa do meu temperamento nela.” 

O diretor conta que o período de isolamento por causa da pandemia foi produtivo. “Embora o confinamento nunca seja divertido, li, escrevi e consegui ficar próximo de pessoas a quem amo. Estive trabalhando num novo projeto para a Netflix. Há muita coisa acontecendo e o cinema me permite refletir sobre tudo isso.” As salas já retomaram o funcionamento na Polônia, mas o público ainda está reticente. “De maneira geral, as pessoas têm preferido os filmes mais leves. Não dá para concorrer com os blockbusters. Assisti ontem – no dia anterior à entrevista – ao novo King’s Man.” O filme também está em cartaz no Brasil. E...? “É muito diferente do que faço, mas me diverti bastante.

De cara, o diretor Piotr Domalewski já deixa claras duas ou três coisas sobre a protagonista de seu novo longa, Eu não Choro. Ola está fazendo o teste para conseguir a carteira de habilitação como motorista. Está indo bem, seguindo as instruções do instrutor. Ocorre um incidente – ela é fechada por outro motorista. Reage impulsivamente, desce do carro, provoca uma cena, dá pontapés no outro carro. 

Aos 17 anos, Ola está prestes a enfrentar seu maior desafio. A família recebe o telefonema informando que o pai morreu num acidente de trabalho na Irlanda. Ola é encarregada pela mãe para ir buscar o corpo. A família completa-se com o irmão deficiente. A garota exaspera-se com a mãe, com o mundo. Como reagiu no teste, Ola passa a ideia de uma garotada “esquentadinha”, que não engole desaforo. O cinema já mostrou muitos garotos – homens – como ela. E como eles, o desafio que enfrenta a atriz Zofia Stafiej é dar vida a uma eventual badgirl, mantendo-a sempre simpática aos olhos do espectador. 

Sem esse cordão umbilical, se nós, o público, não tivéssemos empatia por Ola, o filme talvez não funcionasse. Na entrevista, o diretor conta que a atriz destacou-se entre as mais de mil garotas que testou. Zofia tem temperamento. O próprio roteiro constrói-se todo sobre seu trabalho como atriz. É como uma odisseia, e na versão clássica de Homero, enquanto Ulisses enfrenta o mundo para voltar à casa, Penélope encontra maneiras de driblar pretendentes e continuar a esperá-lo. No cinema, e em gêneros tradicionais, a mulher muitas vezes ficou ali, no seu canto. Ola, não. Representa uma nova atitude. 

Ela enfrenta a burocracia, o antigo chefe do pai, que lhe apresenta razões pela qual ele não teve direito a seguro, e até encontra a mulher com quem papai estava vivendo em Dublin. Durante mais da metade do filme, Ola não pretende apenas levar o corpo para casa, na Polônia. Ela também quer se apossar do dinheiro que ele lhe prometia para comprar um carro. O mais importante de tudo é a compreensão que ela adquire – olha o spoiler – de que o pai fez o que pôde. É um filme que tem camadas, lindamente interpretado (por Zofia).

 

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