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"Eu a amava e amava fazê-la sorrir", diz Mark Hamill em tributo a Carrie Fisher

Ator britânico recorda de momentos com a colega de elenco de 'Star Wars'

O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2017 | 11h35

As estrelas de Hollywood Debbie Reynolds e Carrie Fisher, mãe e filha que morreram com apenas um dia de diferença marcou a vida de todos os colegas de Star Wars. Um deles, Mark Hamill publicou um texto recordando o momento em que conheceu Carrie, que interpretava a Princesa Leia. No texto, ele define a colega como uma "Mulher do Século" e lembra dos bons episódios ao lado de sua "gêmea espacial."

Leia a homenagem:

"Carrie e eu ocupamos uma área única nas vidas uns dos outros. Foi como se estivéssemos juntos numa banda de garagem que, de alguma forma, estourou! Nós não tínhamos ideia do impacto que Star Wars teria no mundo. Lembro de quando estávamos em turnê logo antes do filme estrear. Quando fomos a Chicago, havia uma multidão no aeroporto. Eu disse 'Ei, pessoal, olha! Deve ter alguém famoso no avião!' Eu fiquei olhando pra saber quem poderia ser. Foi então que eu vi na multidão uma criança com a roupa do Han Solo. Aí eu vi uma garota vestida de Princesa Leia. Eu disse. 'Ai, meu Deus! Olha, Carrie, tem uma pessoa vestida igual a você! Ela tem coques no cabelo!'

Quando conheci a Carrie, eu estava jantando em Londres antes de começarmos a filmar juntos. Eu tinha sido o primeiro a viajar pra África, com Sir Alec Guinness e os robôs, para fazer todas aquelas coisas no planeta deserto, quando eu voltei pra Londres e Harrison Ford foi escalado. Carrie foi a última peça do quebra-cabeça a chegar a Londres. Aí eu disse pro escritório de produção: "Eu gostaria de conhecê-la antes de trabalharmos juntos". Eles providenciaram isso e fomos nos encontrar pro jantar. Ela tinha 19 anos na época, sabe. Eu tinha uns 24. Então eu pensava 'Ai, meu Deus, será como trabalhar com uma criança do Ensino Médio'. Mas eu fui totalmente surpreendido. Quer dizer, ela era tão instantaneamente envolvente, engraçada, sincera. Ela tinha o seu jeito de ser brutalmente franca. Eu tinha acabado de conhecê-la mas era como se estivesse conversando com alguém que conhecia há 10 anos. Ela me contava coisas sobre seu padrasto, sua mãe, sobre Eddie Fisher — e era cruciante em seus detalhes. Eu me pegava pensando "Por que eu deveria saber disso?". Quer dizer, eu não teria dividido aquilo com alguém que eu conhece há anos, anos. Mas ela era o contrário. Ela simplesmente te sugava para o seu mundo.

Eu era tão classe média. Ao crescer, o mais próximo de uma celebridade que tivemos foi nosso vizinho,  o mensageiro de hotel que devolveu a mala de Jerry Lewis que caiu no asfalto em San Diego. Mas Carrie era totalmente diferente. Ela saiu da escola para participar do coro de Irene na Broadway. Eu a reverenciava por isso.

Ela era tão comprometida em brincar, se divertir e abraçar a vida. Ela era uma espécie de Mulher do Século. Eu faria coisas loucas para entretê-la no set. Fazê-la sorrir era sempre uma medalha de honra. Lembro durante O Império Contra-Ataca que fomos separados na narrativa; foi um filme difícil de filmar e havia muita tensão nos bastidores. Eu estava no pântano com os bonecos e robôs, e ao menos Carrie e Harrison tinham de trabalhar com seres humanos. Uma vez, durante o almoço, ela disse: 'Você devia experimentar o meu macacão'. Eu respondi 'Aquele collant branco? Você tem quanto, 1,57m? Eu nunca caberia!'. Ela respondeu 'Experimente'! Eu coloquei aquele traje com zipper de Princesa Leia e aquilo ficava tão apertado que eu parecia um cantor de lounge em Las Vegas. Se aquilo não era ridículo o suficiente, ela teve que me colocar uma daquelas perucas carecas com cabelo de palhaço, óculos e nariz e aí ela me levou pra passear pela área do set.

A extensão do que eu faria para fazê-la sorrir — não havia limites. Eu a amava e amava fazê-la sorrir. Ela faria essas coisas loucas e me faria fazer essas coisas loucas, mas eu realmente não as achava loucas no fim das contas. De certa forma, era um mecanismo de defesa pra ela. Ela era tão excêntrica que ela poderia usar isso como proteção. Parte do que era tão pungente nela é que ela era vulnerável; havia um brilho de uma garotinha que era tão atraente que despertava uma natureza protetora em minha personalidade.

Sou grato por termos nos mantido amigos e tido esse segundo ato com os novos filmes. Acho que foi reconfortante para ela eu estar lá, a mesma pessoa, que ela podia confiar em mim, tão críticos quanto podíamos ser uns com os outros. Ao longo dos anos, nós nos apaixonamos, e foi quando nos odiamos: 'Não falarei mais com você, você julga demais, seu babaca!' Superamos tudo isso! Como uma família.

Quando você caía nas graças dela, não havia pessoa mais divertida no mundo. Ela era capaz de fazer você se sentir a coisa mais importante da vida dela. Eu acho essa uma qualidade muito rara. E as coisas podiam virar 180 graus ao contrário, com um furioso com o outro e sem se falar por semanas. Mas isso é tudo parte do que faz uma relação ser completa. Não há só um lado. Como eu costumo dizer, ela era difícil. Era dramática. Mas minha vida teria sido muito mais tediosa e menos interessante se ela não tivesse sido a amiga que foi."

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