Ettore Scola discute leis raciais

Ettore Scola não gosta de dar entrevistas. Chega a sugerir ao repórter: "Faça uma pesquisa e publique uma síntese; entrevistados sempre se repetem." É pena: o novo Scola, que estréia nesta sexta-feira, já é um dos grandes filmes do ano. E Concorrência Desleal é certamente o melhor trabalho do diretor desde A Viagem do Capitão Tornado, em 1990. Nos 11 anos decorridos desde então, Scola não havia parado de nos brindar com manifestações de sensibilidade e inteligência em filmes como Mário, Maria e Mário, A História de um Jovem Homem Pobre e O Jantar. Só que Concorrência Desleal vai muito além. É da estirpe de suas maiores obras: Nós Que nos Amávamos Tanto, Um Dia muito Especial, Casanova e a Revolução e O Baile.Já que o próprio autor se recusa a falar sobre seu filme cabe a nós, que o admiramos, descobrir as raízes profundas que o levaram a fazer esse filme tão verdadeiro e emocionante. Nesses tempos de inteligência artificial, nada como o humanismo de Scola para restabelecer a fé no cinema. Concorrência Desleal trata das leis raciais que surgiram na Itália em 1938. Engloba aquele dia especial que Scola focalizou no filme com Marcello Mastroianni e Sophia Loren, quando Hitler se encontrou com Mussolini em Roma e os dois selaram sua aliança sinistra. No texto que a distribuidora Pandora distribuiu à imprensa, há uma nota do diretor. Vale reproduzi-la:"Viver na mesma cidade, na mesma rua, fazer o mesmo tipo de trabalho, pertencendo ao mesmo meio social, tendo o mesmo tipo de família - uma esposa, duas crianças, tias, tios, avós - e ainda assim não ser igual, não ter os mesmos direitos, não poder freqüentar as mesmas escolas nem exercer sua profissão ou abrir o próprio negócio. Sofrer a exclusão e a intolerância. Descobrir que você é ´diferente´ por nascimento ou devido à raça. Foi o que ocorreu, no passado, com os negros e os judeus. É o que ocorre hoje, na Europa, com os trabalhadores que vêm do outro lado da União Européia."Para expressar o horror, Scola criou a história dos dois comerciantes de roupas cujas lojas são grudadas. A rivalidade profissional começa por dividi-los, estimulando os ardis e as trapaças. Essa parte do filme vai até o momento em que o personagem de Diego Abatantuono, querendo ofender o de Sergio Castelito, que está lhe roubando os clientes, chama o outro de ´judeu´, conferindo à palavra toda a sua força pejorativa. A partir daí e num processo que passa pela tomada de consciência de Abatantuono pelo que está ocorrendo em seu país, ambos se tornam solidários. A injustiça termina por selar a verdadeira amizade.Todo o filme é visto pela ótica do menino e o recurso poderia estar desgastado não fosse o grande talento de Scola. As regras e proibições impostas aos judeus pelo fascismo são absurdas, mas também tragicamente engraçadas e até grotescas. O tio vagabundo pode lembrar o de Amarcord, a reconstituição que Federico Fellini fez de sua infância, em Rimini, também sob o fascismo. Mas o tio do filme de Fellini não vira camisa-negra nem tem o desfecho que leva Castelito, no auge da depressão provocada pela nova ordem que o exclui, como homem e cidadão, ao ataque de riso de Concorrência Desleal.É um raro e belo filme que reconstitui, com brilho invulgar, uma página da história da qual os italianos não podem se orgulhar. Para enfatizar o que querem dizer, Scola e os roteiristas Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Silvia Scola criaram o personagem de Gérard Depardieu, mas ele não está lá só para brandir as verdades do diretor, como porta-voz de suas convicções políticas e crenças humanistas. Concorrência Desleal não é um teorema para expor uma tese. Também não é um subproduto de A Vida É Bela, misturando infância, Holocausto e humor com vistas ao Oscar. É o retorno do cinema italiano a uma vertente humana e realista que fez sua grandeza, ao longo dos anos. Toda essa beleza fica expressa na última frase dita pelo garoto. É tão simples e tão rica, tão ingênua e tão profunda que vai fazer parte das frases definitivas do cinema.Serviço - Concorrência Desleal (Concorrenza Sleale). Drama. Direção de Ettore Scola. It/2000. Duração: 110 minutos. 14 anos

Agencia Estado,

06 de setembro de 2001 | 17h56

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