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Ética e estética em ‘Repare Bem’, de Maria de Medeiros

Por que e no que é preciso reparar bem no filme que estreia depois de vencer o Festival de Gramado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2013 | 19h22

No recente Festival de Gramado, Repare Bem ganhou o prêmio de melhor longa estrangeiro – na mostra latina. A história e as personagens são brasileiras, a coprodução também, mas a diretora Maria de Medeiros explicou que a Ancine exige que o realizador seja natural do País, ou naturalizado, para outorgar o selo de filme nacional. Repare Bem soma-se a A Alma da Gente, de Helena Solberg e David Meyer, que também estreou ontem. É forte, doloroso – e necessário.

Durante o debate em Gramado, o repórter interpelou a atriz, e diretora portuguesa. Sua mise-en-scène é tosca. Isso pode ser uma limitação, mas também é uma estratégia e a própria Maria assumiu a definição. “Sempre encarei esse filme como um exemplo de arte povera (arte pobre). Ele foi feito com carência de recursos, mas mesmo se tivesse muito dinheiro acho que serias obsceno fazer um filme bonito, com movimentos rebuscados de câmera. A beleza tem de ser interior, como os personagens. Vou assumir que é tosco.”

Repare Bem nasceu como uma proposta da Comissão da Verdade. O primeiro desafio da diretora foi convencer a ex-guerrilheira Denise Crispim a dar seu depoimento. Foram três dias muito intensos, durante os quais ela reviveu sua experiência nos porões da ditadura militar, brutalmente torturada pelos sicários do antigo regime. Denise foi companheira de Eduardo Leite, o Bacuri. Ela fala maravilhas do companheiro, da sua beleza externa e interna. Bacuri foi morto com requintes de selvageria – Freud explicaria que, ao desfigurá-lo, a intenção dos agentes era ir além da extirpação de tanta beleza.

Ele foi solta, mas foi um longo caminho, através do Chile, até chegar à Itália, onde reconstituiu a vida. A reconstrução foi integral – Denise reaprendeu a amar, encontrou um outro companheiro. Sua filha, com Bacuri, mora na Holanda. Do pai, Eduarda possui uma camisa – e fotos. Mãe e filha dão seus testemunhos separadamente. Encontram-se apenas no gabinete em que os integrantes da Comissão de Justiça se desculpam perante Eduarda, em nome do governo e do povo brasileiros. É um filme construído sobre a palavra. É ela que domina a cena. Duas mulheres, Denise e Eduarda, que falam, e choram.

Como reconstituir o sofrimento? Como superá-lo? Maria prescindiu das imagens de arquivo. Ela abre Repare Bem com cenas de Um Dia Muito Especial e só bem mais tarde explica o porquê do filme de Ettore Scola com Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Denise admite que tem uma relação complicada com a filha. Ela teve uma mãe ideologizada, mas o peso da sua ideologia foi demais para a filha e marcou Eduarda. Maria (a diretora) foi quem convenceu a filha a encarar o passado.

O filme foi acusado por alguns críticos de ser chapa branca. É o reverso – um testemunho verdadeiro, de uma história que tem de ser resgatada. O título vem de uma citação de José Saramago (em Ensaio Sobre a Cegueira), mas também se refere à luta por reparação das vítimas da ditadura. Sobre a vida que veio, Denise revela – “Sofri muito, mas me considero privilegiada. Encontrei dois homens maravilhosos na minha vida. No meu imaginário, é como se os dois se fundissem numa coisa só”. O verdadeiro amor pleno.

REPARE BEM

Direção: Maria de Medeiros.

Gênero: Documentário (Brasil/ 2012, 95 minutos).

Classificação: 10 anos.

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