Estudo indica suspeita de bots na divulgação de 'Nada a Perder' no Twitter

Estudo indica suspeita de bots na divulgação de 'Nada a Perder' no Twitter

Análise de publicações na rede social em nove datas diferentes calcula que 29,5% dos 291 usuários que ajudaram a levar a hashtag #NadaaPerder aos trending topics apresentaram comportamento robótico

Alessandra Monnerat, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2018 | 06h01

Um monitoramento do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC-UFMG) sobre os assuntos mais comentados do Twitter aponta para a presença de bots – programas desenvolvidos para simular humanos – na divulgação de Nada a Perder, cinebiografia do bispo fundador da Igreja Universal, Edir Macedo. O filme, lançado no dia 29 de março, tornou-se a maior bilheteria da retomada do cinema brasileiro no dia 7 de maio, ao atingir a marca de 11,383 milhões de ingressos vendidos.

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Análise de publicações na rede social em nove datas diferentes, entre 16 e 28 de março, calcula que 29,5% dos 291 usuários que ajudaram a levar a hashtag #NadaaPerder aos trending topics apresentaram comportamento robótico, com postagens repetitivas e sucessivas sobre o filme. Também foram levadas em conta publicações com a hashtag #NadaAPerder. Foram checadas 158 contas – 24% com suspeita de automatização. Ao todo, a pesquisa analisou 9.322 tweets com as duas tags.

O sistema do DCC-UFMG, chamado Bot ou Humano, verifica postagens de amostras aleatórias de 1% dos usuários da plataforma, dados fornecidos pelo Twitter. Os pesquisadores monitoram todas as hashtags que chegam aos trending topics. A metodologia de detecção de possíveis robôs é baseada no Botometer, ferramenta desenvolvida pela Universidade de Indiana (EUA). 

Cada conta do Twitter recebe uma nota de 0 a 1 baseada em seu padrão comportamental. Se os tweets forem publicados em uma frequência incomum, em horários predeterminados, e com textos impessoais, copiados ou pré-formatados, a pontuação aumenta. Um resultado acima de 0,5 indica suspeita de bot. Na amostra estatística, foram encontrados 124 usuários que atendem a esse perfil. 

O professor da UFMG Fabrício Benevenuto, que coordena o monitoramento sobre trending topics, explica que uma das pistas para desconfiar da presença de bots no impulsionamento de uma hashtag é o anonimato dos usuários. “Tipicamente, características de bots incluem: contas criadas recentemente, sem fotos ou descrição, nomes que seguem um padrão, como por exemplo um nome seguido de número e contas cujos amigos não possuem muitos amigos entre si.”

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Algumas contas que publicaram sobre Nada a Perder caíram na malha fina do monitoramento e correspondem a todos esses sinais: não têm foto, descrição ou dados pessoais em seus perfis. Além disso, esses usuários possuem poucos ou nenhum seguidor e só publicaram tweets em expectativa à estreia do filme.

Outro indício é a frequência de postagens – intervalos incomuns entre publicações podem sugerir um comportamento de bot. Um usuário apontado pelo monitoramento chegou a publicar 583 vezes em apenas cinco datas. Uma conta chegou a publicar 163 vezes a mesma mensagem: “A expectativa é grande #EstreiaNadaAPerder”, seguida de números de contagem e hashtags de localização.

Segundo Benevenuto, o alto número de tweets oposto ao pequeno número de usuários encontrado pelo levantamento é uma característica de automatização. “Uma pessoa comum não costuma fazer tantas postagens”, afirma.

Contas institucionais podem ser apontadas como bots por características como impessoalidade e frequência regular de postagens. Também é possível que a análise indique contas de pessoas reais que têm padrão de comportamento similar ao de bots – isso pode ocorrer quando uma rede de usuários posta de maneira repetitiva e coordenada com o objetivo de subir uma hashtag aos assuntos mais comentados da rede social. 

Diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, Fabro Steibel explica que essas contas são chamadas de ciborgues: meio humanas, meio robôs. “São contas de humanos que são utilizadas para dar repercussão de maneira automatizada. Se você compartilha sua senha ou se colabora espontaneamente com a rede de bots, dá voz a um comportamento automatizado.”

Segundo o especialista, tanto o uso de bots quanto o de ciborgues para inflar artificialmente um assunto é uma prática maliciosa. “Eles dão um sentimento de multidão quando a multidão é falsa. É a manipulação da visibilidade de um tema. Como os algoritmos das redes são sensíveis a esse tipo de comportamento, você afeta o que pessoas que não estão nessa rede de bots vão acabar vendo.”

Na estreia de Nada a Perder nos cinemas, salas de exibição visitadas pelo Estado tinham vários lugares vazios, apesar do anúncio de 4 milhões de ingressos vendidos antecipadamente para o filme. Reportagem do jornal Globo chamou atenção para o fato de o filme, mal recebido pela crítica especializada, ter nota alta em avaliações no site especializado Internet Movie Database (IMDb).

Equívoco. A Igreja Universal, da qual Edir Macedo é fundador e líder, afirmou que o levantamento da UFMG é “tão equivocado, tão absurdamente impreciso, que poderia se aproximar de modo perigoso da má-fé”. Em nota, a instituição disse que o Estado usa o estudo para acusar “a Universal de fraudar o sucesso do longa no Twitter”.

A Universal também apresentou uma lista de 20 usuários apontados pelo sistema da UFMG que têm contas em outras redes sociais. Além disso, aponta outras quatro contas institucionais que caíram na malha fina do levantamento.

“A acusação de que a Universal se utiliza de ‘robôs’ é o tipo de fake news que a imprensa vem tentando plantar teimosamente”, afirma a nota.  A distribuidora da cinebiografia, Paris Filmes, declarou desconhecer o uso de bots na internet. “Pela distribuidora, a única mídia online utilizada para o lançamento de ‘Nada a Perder’ no Twitter foi realizada por meio de posts patrocinados”, disse em nota.

O Twitter comunicou, também por nota, que as regras de uso do site proíbem o uso de spam e automação mal-intencionada. “O Twitter não comenta sobre contas específicas, mas, se houver violação às regras, as contas envolvidas estão sujeitas às medidas previstas em nossa política, incluindo suspensão ou bloqueio”, informou a assessoria. 

 

Leia, abaixo, a nota da Universal na íntegra:

"Em uma breve análise, conclui-se que o estudo que é base para a pauta proposta pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, está tão equivocado, tão absurdamente impreciso, que poderia se aproximar de modo perigoso da má-fé.

A partir de uma lista elaborada pelo “Departamento de Ciência da Computação da UFMG”, baseado em “sistema desenvolvido pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos”, o jornal afirma que, no lançamento do filme “Nada a Perder”, 30% dos usuários que tuitaram sobre o longa com determinadas hashtags “apresentaram comportamento robótico”. Ou seja, acusa a Universal de fraudar o sucesso do longa no Twitter.

Embora seja papel do jornal avaliar - e confirmar - a veracidade das provas da acusação que pretende apresentar, visitamos alguns perfis no Twitter da tal “lista de robôs”. Surpresa: encontramos inúmeras pessoas que participam da mídia social regularmente, tratando de diversos assuntos, e com presença em outras redes sociais. Ou seja, não são os “bots”.  Só isso já bastaria para desacreditar a veracidade do estudo apresentado. Nossa lista parcial está mais abaixo.

Mas há outro erro primário, o monitoramento da UFMG também atribui à Universal a responsabilidade por tuítes de perfis automáticos, que não têm absolutamente nenhuma relação com a Instituição, como @Trendinalia, @TrendsBrasil e o @TrendsMap.

A acusação de que a Universal se utiliza de “robôs”, é o tipo de fake news que a Imprensa vem tentando plantar teimosamente. Por exemplo, há alguns dias, circulou a informação de que as notas atribuídas a “Nada a Perder” em sites de avaliação de filmes, seriam resultado desse expediente.

Pois Matthieu Thibaudault, responsável pelo site “Adoro Cinema” - um dos serviços que teriam sido invadidos pelos “robôs” da Universal - afirmou em entrevista que os usuários que publicaram resenhas e notas positivas do filme, “não se tratam de robôs, mas sim de novos cadastros de usuários reais”. 

A Igreja Universal do Reino de Deus possui mais de 9 milhões de adeptos no Brasil.

Apenas no Twitter, os perfis institucionais, dos programas sociais e de alguns membros do corpo eclesiástico da Universal somam cerca de 1.900.000 seguidores. É ridículo supor que seria necessário o uso de 300 “robôs” para promover uma campanha na rede social.

O que a Universal faz, e “O Estado de S.Paulo” parece ainda não ter compreendido, é mobilizar as pessoas. Mobilização que leva milhares de voluntários de outras denominações e diversas religiões a ajudar moradores das periferias, de cidades sem uma única sala de cinema, para que possam assistir a um filme;

O filme “Nada a Perder” não é um sucesso porque os fiéis da Universal quiseram tuitar determinadas hashtags. É um sucesso porque que traz uma mensagem poderosa, que muda vidas.

Esperamos que os argumentos acima bastem para que “O Estado de S. Paulo” compreenda a existência de erros insolúveis no levantamento que sustenta a pauta.

Caso contrário, se mesmo assim o jornal publicar uma reportagem baseada em um erro, solicitamos que estes esclarecimentos sejam levados na íntegra aos leitores do jornal impresso e demais plataformas."

 

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