Konrad Giehr / via AP
Konrad Giehr / via AP

Estudo confirma o papel ativo sob o nazismo do fundador da Berlinale

'O papel de Bauer na direção geral do cinema do Reich foi mais relevante do que se pensava', disse o comando da Berlinale, em comunicado divulgado nesta quarta

Agências, EFE

30 de setembro de 2020 | 13h03

Um estudo científico, encomendado pelo Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, atestou o papel ativo que seu fundador, Alfred Bauer, desempenhou junto à indústria cinematográfica sob o nazismo, bem como a sua determinação em escondê-lo após o fim do regime de Adolph Hitler.



“O papel de Bauer na direção geral do cinema do Reich foi mais relevante do que se pensava”, disse o comando da Berlinale, em comunicado divulgado nesta quarta, 30.

As suspeitas sobre tal papel surgiram em janeiro passado, logo após a 70ª edição do festival ter sido apresentada em Berlim, a primeira sob a direção colegiada do italiano Carlo Chatrian e da holandesa Mariette Rissenbeek. O prêmio instituído em memória do fundador, o terceiro mais importante na lista de homenagens, foi imediatamente suspenso. O Instituto de História Contemporânea (IfZ) foi então encarregado de checar a fundo essas revelações que comprometem um um festival nascido no pós-guerra e dirigido pelos aliados.

A Direção Geral do Cinema do Reich foi criada pelo ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, em fevereiro de 1942, observa a Berlinale, no comunicado com as conclusões do estudo. A partir daí, as pessoas envolvidas no cinema foram controladas, desde atores a diretores, câmeras e pessoal técnico. Seu trabalho era “dirigir” a produção de filmes sob o nazismo; Bauer ocupou um cargo na direção, o que não o impediu, após o fim da Segunda Guerra Mundial, de seguir a carreira no cinema e se tornar o primeiro diretor da Berlinale em 1951, cargo que ocupou até 1971.

O historiador Tobias Hof, encarregado do estudo, observa que Bauer foi parte ativa do aparelho destinado a “estabilizar e legitimar”, do ponto de vista da propaganda, o regime nazista. Em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder, juntou-se a várias organizações nazis e, desde 1937, era membro do Partido Nacional Socialista (NSDAP).

Ele conseguiu superar o programa de desnazificação dos Aliados – entre 1945 e 1947 – falsificando seu passado, explicando "meias verdades", escondendo seu papel no aparato de Goebbels e até construindo uma imagem de inimigo do regime. Essas revelações "fazem a gente se perguntar quais personalidades acabaram marcando a cultura alemã do pós-guerra", questiona Rissenbeek. E mostram a necessidade de “continuar pesquisando” essa parte da história do cinema alemão, continua o diretor do festival.

Até estourar o escândalo, fruto de algumas informações publicadas pelo semanário Die Zeit, tudo o que se sabia do passado de Bauer era que havia trabalhado no cinema durante o Terceiro Reich e que havia pertencido a organizações do regime.

A consequência imediata foi a suspensão do Prêmio Alfred Bauer, instituído em 1987. Até então, havia sido o terceiro lugar na lista de homenagens, depois do Urso de Ouro de melhor filme e do Grande Prêmio Urso de Prata do Grande Júri. Em seus últimos vinte anos, o prêmio foi muitas vezes para cineastas latino-americanos, como La Ciénaga, da Argentina, de Lucrecia Martel (2001), El Custodio, de seu compatriota Rodrigo Moreno (2006), Lago Tahoe, do mexicano Fernando Eimbcke (2008), Gigante, do uruguaio Adrián Bniez (2009), Oxcanul, do guatemalteco Jayro Bustamante, e Las herederas, do paraguaio Marcelo Martinessi. 

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