Estrela cibernética brilha em "Final Fantasy"

Não há uma sala no novíssimo estúdio Square Pictures, instalado nos últimos andares de um arranha-céu no centro desta cidade havaiana, e de onde se vê Pearl Harbor a distância, que não tenha fotos da mais recente sensação de Hollywood afixada em suas paredes de fórmica. Mesmo na penumbra de alguns desses cubículos com espaço apenas para um mesa, computador e cadeira, pode-se ver que as imagens da beldade não contêm nenhum bigodinho, chifre ou aqueles palavrões de banheiro feitos a caneta. Todos os 180 profissionais do estúdio idolatram sua estrela, como se eles já soubessem de antemão que o futuro dela será mais brilhante que o de Julia Roberts. Aki Ross é tratada a pão-de-ló pela equipe da Square. Ela tem um profissional (eles são quase todos homens) só para cuidar dos retoques de suas roupas de couro. Há uma equipe inteira designada para tomar conta de cada um dos 60 mil fios de cabelos da diva. Mesmo com esses luxos, Aki é considerada uma garota pé no chão, longe do comportamento de uma Jennifer Lopez ou Demi Moore. Para manter essa imagem, ela tem um profissional japonês só para cuidar de suas sardas e não disfarçar outras manchas faciais ou um cravo preto no nariz. A beldade talvez não seja mais alta que Gisele Bündchen, mas o resto de suas medidas são perfeitas, apesar da boca meio estranha. Eleita uma das cem "mulheres" mais sexies de 2001, Aki é aquele tipão cobiçado pela equipe de Hugh Hefner. Mas, ao perguntar quando ela estará nas páginas centrais de Playboy, você é lembrado do sacrilégio de sua questão. A primeira a fechar o tempo é a assessora de Imprensa. Existem outros fatores que estão fazendo Aki ser amada por Hollywood: ela abre mão de salários astronômicos, não faz greve, dispensa preparadores físicos e trailers bem equipados, nunca exige voar em jatinhos particulares e não cai na cama errada. "Uma mulher perfeita assim somente em desenho animado, não?", brinca Jun Aida, chairman do estúdio. Pois é no universo da animação cinematográfica que Aki Ross vive, ou melhor, foi desenhada. A estrela de Final Fantasy: The Spirits Within, filme lançado na última semana nos EUA, Hong Kong, Malásia e Cingapura e que chega aos cinemas brasileiros no dia 10, não existe. Ela foi criada por computadores, e sua alma é feita de pixels e logaritmos. Sua grande contribuição para o mundo do cinema não vai ser lembrada com um Oscar, mas poderá ficar escrita nos livros da história do show biz como a protagonista da primeira superprodução de Hollywood a ter um elenco inteiro de personagens humanos criados por computadores. "Tentamos levar a animação para lugares nunca antes imaginados, mas cujas possibilidades vinham sendo acenadas há anos", explica o japonês Hironobu Sakaguchi, diretor de Final Fantasy, em entrevista ao Estado. "Aki é uma personagem sem igual no momento, mas ela representa apenas 50% do que poderemos fazer num futuro próximo. Nosso trunfo foi ter conseguido captar toda a vivacidade do olhar e o restante de suas expressões faciais, onde reside a alma de todo ser humano." Sakaguchi é novato no mundo do cinema, mas seu nome é conhecido pela molecada e outros jovens, mesmo que apenas de coração. Em 1987, ele criou o videogame interativo Final Fantasy, um hit entre 33 milhões de pessoas e que agora se encontra em sua nona versão. O jogo Final Fantasy X, agora no sistema PlayStation, da Sony, está sendo lançado este mês no Japão e, um pouco antes do Natal, em todas as outras partes do globo. Foi durante a sexta versão, lançada há quatro anos, que a equipe da Square, companhia que criou FF, pensou em traduzir o game para o cinema. "Mostramos uma seqüência de 15 minutos, mais tarde incorporada à sétima versão do jogo, ao chairman do estúdio Sony", explica o produtor Aida. "Eles gostaram e um acordo foi firmado, mas duvido que, naquela época, alguém tenha acreditado que poderíamos ter chegado a tão longe." Evitando ficar muito próximo de Los Angeles e muito longe de Tóquio, de onde veio mais da metade dos profissionais de Final Fantasy, Sakaguchi & cia. decidiram construir um estúdio no Havaí. Foram US$ 45 milhões na construção das dependências do prédio Harbor Place, mais US$ 70 milhões para criar o fotorrealismo do filme. A Columbia Pictures, de propriedade da Sony, ficou encarregada dos gastos de marketing, distribuição e divulgação do filme, soma que, acredita-se, tenha ficado bem próxima dos US$ 50 milhões. Um total de US$ 19,1 milhões, faturado nos primeiros cinco dias de estréia do filme nos EUA na semana passada, foi considerado abaixo das expectativas. Mas, em países asiáticos, Final Fantasy foi lançado em primeiríssimo lugar. Ao contrário da maioria dos desenhos e filmes de sci-fi de destruição alienígena, a trama de Final Fantasy tende para o questionamento espiritual e filosófico. Com o sucesso de O Tigre e o Dragão, surge o elemento da contemplação zen. "Toda grande história de ficção científica pende para o lado do mitológico", explica Chris Lee, um dos produtores, que já foi ao Brasil fazer "uma extremamente bem-sucedida" apresentação do filme para donos de cinema e licenciadores. "Se Guerra nas Estrelas é um híbrido de Kurosawa, nós fomos buscar uma reflexão mais metafísica."

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