Estréias no feriado

Manoel de Oliveira, Jacques Rivette, os irmãos Coen - o feriado prolongado é sempre aquele momento em que os exibidores e distribuidores programam filmes importantes, em geral de massas, na expectativa de faturar mais. Esta quinta-feira não é exceção. Entram em cartaz oito novos filmes. Há o trivial de sempre - uma comédia sobre adolescentes (Cem Garotas), na linha de American Pie; outro filme de adolescentes que faz uma discussão, digamos, pueril sobre a ética na imprensa e na vida (Intrigas, produção de Joel Schumacher); uma aventura com Wesley Snipes como herói de ação (A Cilada) e um misto de thriller e ficção científica com a deusa Jennifer Lopez, que acaba de ser escolhida, nos EUA, a mulher mais sexy do mundo (A Cela).São muitos os lançamentos, mas o filé dessa seleção é representado pelo segmento de arte. O quarto Dogma (O Rei Está Vivo, de Kristian Levring), sobre grupo perdido no deserto que encena a peça suprema sobre o declínio moral, Rei Lear; um Oliveira de dois anos atrás (Inquietude), anterior a A Carta e Palavra e Utopia; um filme de Rivette (Defesa Secreta), autor ausente dos cinemas brasileiros desde A Bela Intrigante; e o novo filme dos Coen (E aí, Meu Irmão, Cadê Você?), em que o astro George Clooney exibe seus dotes canoros.O melhor de todos esses filmes é o de Oliveira, que articula três histórias para transformar a estética em ética e falar de temas que são caros ao mestre, como o tempo e a morte, além de oferecer mais um belo papel a Leonor Silveira, a genial Bovarinha de Vale Abraão. Para quem acha que Brasil e Portugal são países divididos pela mesma língua e é difícil entender o que dizem os atores de Oliveira, a novidade é que Inquietude título cheio de sugestões, está sendo lançado com legendas, o que deve facilitar bastante a adesão do público.Nome importante do movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, Rivette foi sempre um tanto outsider na nouvelle vague. É outro artista obcecado pelo tempo, o que se percebe na própria duração de seus filmes. Defesa Secreta dura três horas. Se fossem tiradas todas as cenas em que a personagem anda de trem, de metrô ou caminha pela rua daria um curta-metragem.Rivette não merece esse tipo de exercício de razão cínica. Como Oliveira, faz um cinema de resistência, nos antípodas de Hollywood. Defesa Secreta possui ingredientes de thriller, mas certamente não o é, pelo menos no sentido que a eficiência hollywoodiana atribui ao gênero. Uma mulher (Sandrine Bonnaire) ouve do irmão que o pai deles foi assassinado e não morreu num acidente de trem. O irmão promete vingá-lo. Sandrine toma a dianteira, para protegê-lo. Tem uma relação complicada com o assassino. Torna-se cúmplice dele.Acidente, assassinato. Rivette trabalha no limite, mostra que as coisas nunca são o que parecem. Surgem revelações familiares. Tudo lento, muito dialogado. Rivette é um diretor que impõe respeito, às vezes um grande diretor. Trabalha aqui com atrizes fascinantes - Sandrine, Françoise Fabian, que faz parte das emoções memoráveis do cinema (por Minha com Ela, de Eric Rohmer). Mas esse, realmente, não é dos seus melhores trabalhos.Assim como E aí Meu Irmão também não representa o melhor dos irmãos Coen. Aliás, acabou-se a designação genérica - um filme dos irmãos Coen. Eles continuam trabalhando juntos, mas Ethan produz e co-escreve o roteiro, enquanto Joel dirige e, portanto, é o autor do filme. A história dos três fugitivos da cadeia lança um olhar humorado e crítico sobre o Sul profundo dos EUA, durante a depressão econômica dos anos 30, comporta observações divertidas e inteligentes, mas os Coen, realmente, andam deixando a desejar. Depois de O Grande Lebowski, E aí Meu Irmão deixa de novo a sensação de que as coisas não andam mais muito boas para eles. O filme, de qualquer maneira, conta com o carisma de George Clooney, um dos preferidos do público, para atrair os espectadores.Rescaldo - Oliveira é um autor conhecido no Brasil principalmente por meio da Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Inquietude é o único de seus filmes recentes que não é apresentado no País pela Mostra. O lançamento é do selo Filmes do Estação. O feriadão coincide, de qualquer maneira, com o encerramento da Mostra. Amanhã à noite, o júri anuncia o vencedor do troféu Bandeira Paulista para o melhor filme, escolhido entre os 12 selecionados pelo público. Após a premiação, passa enfim o filme mais aguardado dos últimos tempos - Dançando no Escuro. E, a partir de sexta-feira, começa a repescagem da Mostra, com a exibição dos filmes premiados.

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