Julien Roux
Julien Roux

Estreias da semana nos cinemas contemplam filmes de mulheres, sobre mulheres

Trabalho, amor, natureza e identidade das mulheres estão em foco em ‘A Número Um’, ‘Daphne’ e ‘Encantados’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 06h00

Comemora-se nesta quinta, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. A data surgiu no quadro de manifestações que congregavam mulheres trabalhadoras e lutavam por melhores condições. Um protesto particularmente violento ocorreu na Rússia czarista, em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro pelo calendário juliano), e esse dia foi instituído pela ONU, em 1975, para lembrar as conquistas das mulheres. Passaram-se mais de 40 anos e a comemoração se faz agora num momento de afirmação feminina, a partir das denúncias de abuso e assédio na indústria do entretenimento.

As estreias desta quinta contemplam filmes de mulheres, sobre mulheres. A de A Número Um, da francesa Tonie Marshall, virá acompanhada de ações especiais da distribuidora Imovision para ressaltar a importância do filme, e da data. Só para lembrar, a Imovision, de Jean-Thomas Bernardini, já fez ações integradas com a comunidade LGBT no lançamento de Uma Mulher Fantástica, e o filme do chileno Sebastián Lelio acaba de vencer o Oscar de estrangeiro.

Outras estreias estão nessa mesma seara – Encantados, e o filme da brasileira Tizuka Yamasaki desencantou. Estava pronto desde 2014 e já rodou festivais nacionais e internacionais, sem conseguir chegar ao mercado. Seu tema são as encantarias da cultura paraense, e o filme conta a história da pajé Zeneida Lima, de 83 anos, educadora, escritora e fundadora da Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia. Tizuka conhece seu ofício e envereda pelo panteísmo lírico para criar cenas que mostram a garota, futura pajé, incorporando as forças da natureza e o espírito da floresta. É um filme plasticamente cuidado, mas não muito mais que isso.

Daphne difere, não exatamente por propor outro recorte da condição feminina, mas porque desta vez o diretor é homem – Peter Mackie Burns. A atriz Emily Beecham – ótima – compõe uma personagem de humor ácido, mas infeliz. Faz sexo com diversos homens, mas, como diz, essa “é uma ilusão necessária para a propagação da espécie”. No seu pequeno universo, o desencantamento pelo estado do mundo ela não deixa de ser a representação viva das ideias do filósofo esloveno Slavoj Zizek.

Numa entrevista por telefone, de Paris, a diretora e roteirista Tonie Marshall conta que, há pelo menos dez anos, já tentara fazer um filme sobre os clubes de mulheres e os ‘réseaux’ (as plataformas) feministas que passaram a se tornar frequentes na França. Decorrido todo esse tempo, ela finalmente chegou ao seu viés. “Até há pouco tempo, não havia nenhuma mulher CEO nas 40 maiores companhias do país, fossem públicas ou privadas. Entrevistei mulheres em cargos de comando para entender como isso se passava. Os homens formam um clube muito fechado, e são duros na defesa de seus privilégios, mas o objetivo nunca foi criar uma meritocracia unicamente feminina. O filme não prega a exclusão e possui personagens masculinos representativos de diferentes posições face ao problema. Nem todo mundo é inimigo.”

Emmanuelle Devos é quem faz o papel, pelo qual foi indicada para o César, o Oscar francês. Mesmo sem receber o prêmio – a vencedora foi Janne Balibar –, Emmanuelle é excepcional no papel. “Enquanto escrevia, pensava numa atriz e Emmanuelle, aos poucos, começou a se impor no meu imaginário. Ela tem uma beleza selvagem, é sensual, mas fundamentalmente possui força cênica, e física. Dá para acreditar nela como essa mulher que vai à luta de cara limpa, e vai tendo de se adaptar às circunstâncias.” Entre os atores, destacam-se dois, Sami Frei, que faz o pai, e Richard Bérry como o oponente. “Sami tem feito muito pouca coisa e, mesmo assim, eu o visualizava no papel desse intelectual que não perdeu o charme com a idade e ainda é sedutor. Os intelectuais franceses desconfiam muito do patronato, e o fato desse pai ver sua filha se direcionar para um espaço de que desconfia cria uma tensão interessante.”

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Quanto a Richard Bérry, olhem o que diz a diretora. “Queria que, no limite, o espectador percebesse sua humanidade.” Nesse sentido, a cena da ópera – olha o spoiler! – é fundamental. “Pensei muito e discuti com algumas pessoas para chegar a essa cena que também me agrada. Mas a cena tem seus críticos e críticas. O momento é de polarização.” Para concluir, Tonie se considera uma diretora feminista? “Detesto rótulos, mas, desde que ganhei o César por Instituto de Beleza Vênus, sou associada a um cinema da mulher. Mas o que me interessa é o outro. Se eu não conseguir expressar o homem, ou a diversidade, estarei me limitando. A dialética me interessa menos como confronto do que como possibilidade de compreensão mútua.”

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