Estréias antecipadas são boa opção de lazer

Depois de fazer sucesso na 3.ª Semana de Cinema: Brasil & Independentes, o filme argentino Nove Rainhas entra nesta quinta-feira em cartaz na cidade. É um lançamento pequeno da Columbia (apenas seis cópias), mas quem viu o filme de Fabián Bielinski com certeza vai recomendá-lo a amigos e familiares. Se a propaganda boca a boca funcionar, é possível que Nove Rainhas encontre seu público em São Paulo, mesmo que dificilmente venha a se converter, no mercado brasileiro, no fenômeno em que se transformou na Argentina.Com 1,4 milhão de espectadores, Nove Rainhas foi o maior êxito do cinema argentino no ano passado e a quarta maior bilheteria da história do país. Bom programa para um feriado cheio de atrações como este. A história do golpista jovem que é envolvido por um trambiqueiro mais velho num grande golpe é engenhosa. E, mesmo que a solução do desfecho - que o diretor pede, por favor, que você não conte a ninguém - seja mirabolante demais, o fato é que Nove Rainhas encerra um pertinente comentário crítico sobre a realidade do país vizinho do Brasil. Bielinski pesquisou esses golpes em jornais, conversou com delinqüentes, mas a maior parte dos relatos veio mesmo das vítimas.Havia sempre alguém para contar uma experiência pessoal, ou de um amigo, ou de alguém da família. Bielinski confessa-se fascinado por esse tipo de ação criminosa que usa a manipulação psicológica mais que as armas. Há um subtexto em Nove Rainhas - terá a Argentina se convertido num país de trambiqueiros? A prisão domiciliar do ex-presidente Carlos Menen atualiza de forma inesperada a leitura do diretor e faz deste filme um programa que você não deve perder. Os atores são ótimos Ricardo Darín e Gastón Pauls, com sua cara de bom moço. E Leticia Brédice é deslumbrante - a nova bomba sexy do cinema argentino.Mais do que o comentário político, que o seu filme comporta, o diretor Bielinski fez Nove Rainhas atraído pela história que queria contar. Há outra boa história, na verdade, uma coletânea de histórias que se cruzam em Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar Para Ela. O longa de estréia de Rodrigo García Márquez, filho de Gabriel García Márquez, o autor de Cem Anos de Solidão, investiga o universo feminino. Trata de mulheres que vivem no mesmo quarteirão de Los Angeles. Nada indica que deveriam se encontrar ou conhecer, mas suas vidas terminam interligadas. Não é um filme sobre mulheres, diz o diretor. É um filme sobre neuroses urbanas. Rodrigo é um diretor talentoso e deve ser um homem persuasivo e sedutor. Conseguiu convencer Cameron Diaz, Holly Hunter, Glenn Close e outras estrelas a trabalharem quase de graça, recebendo só o mínimo estabelecido pelo sindicato dos atores. Atrizes que recebem centenas e até milhões de dólares por papel sujeitaram-se a receber uma migalha do seu salário normal. Fizeram o filme porque acreditavam no projeto.Quase tão bom é Vatel - Um banquete para o Rei , de Roland Joffé, com Gérard Depardieu e Uma Thurman. A história do banqueteiro de Luís 14 proporciona ao diretor de Gritos do Silêncio e A Missão material para discutir dinheiro e poder. Ele pode ter ambientado Vatel no século 17, mas quer mesmo é falar sobre a época atual, com seu culto do espetáculo e da imagem. Vale a pena prestar atenção ao que Joffé tem a dizer. Diretor mediano - apesar da Palma de Ouro em Cannes para A Missão -, há tempos ele vinha decepcionando mesmo dentro de um padrão que nunca foi alto. Com Vatel, assina seu trabalho mais interessante nos últimos anos, mesmo que o filme pareça muito comprometido com o projeto de globalização que assola o cinema atual.Joffé é diretor americano, apesar da origem francesa. A produção é francesa, os atores internacionais e o idioma oficial do filme, o inglês. Nada mais híbrido. O importante é que Vatel resiste a tudo com sua suntuosidade cênica a serviço de uma reflexão crítica sobre os valores, ou a ausência de valores, da sociedade na virada do milênio. O resto não é tão atraente. Uma comédia romântica de Tony Goldwyn com Ashley Judd tenta mostrar que não existe teoria sobre o amor ( Alguém como Você). Completam o elenco Greg Kinnear, o gay de Melhor É Impossível, e Hugh Jackman, o Wolverine de X-Men - O Filme.E há mais dois policiais, um com Morgan Freeman, outro com Steven Seagal. Duas narrativas de ação. Na Teia de Aranha é seqüência de Beijos Que Matam e traz o ótimo Freeman de volta ao papel do detetive Alex Cross, de novo caçando um serial killer que persegue belas mulheres. Parece o de sempre no cinemão hollywoodiano, mas as referências são unânimes em destacar que o diretor neozelandês Lee Tamahori, de O Amor e a Fúria, vai além da mera banalização da violência e consegue proporcionar emoção, surpresa e suspense aos espectadores do seu thriller. Steven Seagal continua duro de agüentar como ator, mas o rapper DMX cria um personagem ambivalente que rouba a cena em Rede de Corrupção. Não representa muito, pois o filme segue o figurino das narrativas estandartizadas para platéias viciadas em pancadaria. A trama trata de corrupção na polícia e o diretor é o mesmo Andrzej Bartkowiak que dirigiu Romeu Tem de Morrer, com Jet Li. Não é para levar a sério, mas a coreografia da luta final é puro balé. E impressionante.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.