Estréiam "O Retorno da Múmia" e "Depois da Chuva"

Houve muitas histórias de samurais, muitas de múmias. Mas houve só um Akira Kurosawa, só uma múmia high tech. Depois da Chuva, que estréia amanhã num pequeno circuito, tem no roteiro de Akira Kurosawa sua grande credencial. O Retorno da Múmia, pelo contrário, invade mais de uma centena de salas em todo o País. Chamadas em outdoors e na televisão estimulam o público a ver o retorno de Brendan Fraser ao papel do herói que descobre a múmia, acordando-a do seu sono milenar. Como explicar às pessoas que é melhor ver Depois da Chuva do que O Retorno da Múmia?Há uma ética da aventura. Lêdo Ivo percebeu-o e assim chamou seu livro de ensaios, chegando a evocar, no texto de abertura, a lendária Coleção Terramarear para expor seu pensamento sobre a ética presente naqueles relatos cheios de emoção e fantasia. Não faltam coragem e ousadia ao poeta ligado à geração de 45, tradutor de Rimbaud no País. Lêdo Ivo atreve-se a dizer que escritor não é só Marcel Proust ou James Joyce. Acredita que o valor do escritor é dado pelo leitor e, por isso, acha fundamental a descoberta que o jovem - o jovem leitor da extinta Coleção Terramarear - fez de autores hoje esquecidos ou negligenciados, como Emilio Salgari e Edgar Rice Burroughs. A ética da aventura ressurge a propósito das duas estréias de amanhã.Depois da Chuva tem toda a grandeza que se pode esperar de um autor como Akira Kurosawa - tudo, menos o próprio Kurosawa. Percebe-se o humanismo do grande artista no texto que escreveu, contando a história de um samurai desempregado, mas Kurosawa, na direção, seria menos reverente com seu material do que o aplicado Takashi Koizumi. Teria colocado mais tensão, violência e até humor no relato, pois era um mestre da narração e não o cineasta tímido que tem medo de arriscar em Depois da Chuva. A ética, de qualquer maneira, está lá e é fascinante.Está presente até em O Retorno da Múmia, mesmo que o diretor Stephen Sommers, também autor do roteiro, exagere nos efeitos que terminam soterrando a emoção. Na verdade, o que ressurge nessa fantasia superproduzida no computador é menos a múmia que o fantasma do pirotécnico Indiana Jones, imortalizado por Harrison Ford na série de Steven Spielberg. A ética entra em cena quando a múmia, traída por aquela a quem ama, entrega-se à destruição. E também porque há um árabe que, por suas noções de lealdade e coragem, anima as raras cenas emocionantes que o filme ostenta. Hollywood celebrando um herói que não o wasp típico, o branco, anglo-saxão e protestante? Só por isso, O Retorno da Múmia incita à indulgência.

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