Estréia 'Viva Zapatero' documentário satírico italiano

Filme exibido no Festival de Veneza 2005, não podia ter melhor hora para chegar ao Brasil

Flávia Guerra ,

08 de abril de 2017 | 16h10

Quando os políticos começam a fazer piada, é hora de os comediantes começarem a fazer política. Bem profere esse ditado um dos entrevistados de Viva Zapatero!, ‘documentário satírico’ da italiana Sabina Guzzanti que não poderia ter melhor hora para chegar ao cinema brasileiro. Viva Zapatero! foi exibido no Festival de Veneza 2005, quando Silvio Berlusconi cumpria o que seria seu último mandato como primeiro-ministro italiano (o primeiro foi de 1994 e 1995 e, depois, de 2001 a 2006).  Veja também:Trailer de 'Viva Zapatero' Trailer de 'Os Reis da Rua' Trailer de 'Quebrando a Banca'  À época, o filme de Sabina (que voltou a Veneza no ano passado com o Le Ragioni dell’Aragosta) jogava poeira do ventilador do sistema silencioso de censura que Berlusconi e seus aliados têm imposto sobre a imprensa e os humoristas italianos.  A história de Viva Zapatero! começa em 2003. Comediante de prestígio, Sabina foi convidada a criar um programa de humor para a RAI (a TV pública italiana, vigiada de perto por Berlusconi, que já detinha o império televisivo da Mediaset). Em sua primeira exibição, RAIot foi sucesso absoluto. Mais de 2 milhões de pessoas assistiram (recorde da TV italiana) a Sabina não só satirizar e ‘encarnar a figura de Berlusconi’ como também a fazer afirmações seriíssimas usando como arma a cara limpa e o humor. Conclusão: RAIot nunca teve uma segunda edição e Sabina foi processada pela Midiaset por "gravíssimas mentiras e insinuações". Foi, entre outras coisas, acusada de não fazer humor, mas jornalismo.  E isso dá cadeia? Em um país onde humoristas "têm só de fazer rir", sim. Não obstante, a Justiça considerou o caso infundado. Então você estava falando a verdade? , brinca o Estado. "Claro. Mas fazê-lo com humor não pode. Ao mesmo tempo, os jornalistas italianos estão com medo de informar. Há autocensura e vai piorar", respondeu ao ser questionada sobre o que espera do futuro da liberdade de expressão na Itália com a vinda do terceiro mandato de ‘il Cavaliere’. Com RAIot cancelado, em vez de se calar, Sabina levou seu humor ao teatro, para onde arrastava multidões. Na turnê que fez pela Europa, decidiu girar o documentário. "Não sobre humor, mas sobre liberdade." Viva Zapatero! faz alusão a José Luis Zapatero, premier espanhol que sancionou a lei que proíbe líderes de Estado de escolher quem manda na TV pública. Desde a estréia do documentário, Berlusconi saiu do poder e dois anos de governo de centro-esquerda se passaram.  Seu sucessor, Romano Prodi, não conseguiu arrumar a casa. Prodi renunciou no começo do ano, o Parlamento foi dissolvido e as eleições, previstas para 2010 foram antecipadas para os últimos dias 13 e 14. E Berlusconi foi reeleito. "Marx tinha razão, não? A história se repete, diz o Estado. "Sim. Mas, não esqueça que a segunda é como farsa. Esta terceira é algo terrível." Ironicamente, Sabina é filha de Paolo Guzzanti (senador de direita ligado à Forza Italia, a coligação fundada por Berlusconi) e que hoje é vice-diretor do Il Giornale, o periódico da família Berlusconi. Sabina insere a cena em que é questionada sobre isso: "A uma certa idade não preciso mais pedir a meu pai permissão para o que posso ou não fazer." A seu pai, não. Mas à força da Forza Italia (na época) e hoje ao Povo da Liberdade, Sabina seria conveniente pedir permissão para fazer rir. E pensar. Mas quem disse que Sabina está preocupada com a conveniência? "Vai piorar. Berlusconi agora tem poder absoluto. Vai controlar o Judiciário. A difamação vai tornar-se crime penal. Isso faz com que tenhamos mais medo do que falamos. Mas não nos calamos", brada ela, que prepara novo documentário sobre o humor no mundo. "Você não tem alguma dica para me dar sobre o humor no Brasil?" É rir para não chorar.   Viva Zapatero! (Itália/ 2005, 80 min.) - Documentário. Dir. Sabina Guzzanti. Cotação: Bom

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