ESTREIA-'Um Toque de Pecado' discute violência na China

Como o próprio título já indica, em "Um Toque de Pecado", vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes 2013, o cineasta chinês Jia Zhang-Ke muda de rumo e amadurece ainda mais.

Reuters

12 de dezembro de 2013 | 10h58

Fez seu filme mais violento até agora, abordando diretamente a criminalidade e também o cinema de gênero - o policial, a ação de Taiwan, o filme de samurai - para tecer, mais uma vez, uma crônica polifônica sobre a China contemporânea. Mas que fala também do mundo todo, especialmente dos países emergentes.

Como em "Em Busca da Vida" (2006), o mundo do trabalho tem uma função decisiva na história. Jia mostra os trabalhadores em trânsito pelo país, imenso e em expansão - ao contrário do continente europeu -, dinâmico, enérgico, mas também turbulento.

Vê-se as caras dos donos do poder econômico, industriais, e também os chefes políticos corruptos, capazes de vender patrimônio público e enriquecer em proveito próprio - o que provoca a ira de Dahai (Jiang Wu), protagonista do primeiro segmento.

Como "Em Busca da Vida" - e também era assim em "Plataforma" (2000) -, não há uma divisão em segmentos. Mas a história, coletiva no fim, decola nas trajetórias de diversas pessoas, que vão partindo, enquanto outras chegam.

O próprio Jia, tal qual Alfred Hitchcock, aparece numa ponta como cliente de um gigantesco hotel, repleto de diversões bizarras para seus clientes novo-ricos, como um desfile de call girls vestidas em uniformes estilizados, com saia curtíssima, do Exército chinês, numa reapropriação excêntrica das cores da Revolução de Mao Tsé-Tung, em 1949.

Como fez magistralmente em "O Mundo" (2004), o diretor demonstra novamente um olhar fino para retratar esses ambientes artificiais imensos - como o mega-hotel, uma sauna, as fábricas, as enormes linhas de montagem que engolem essas multidões de operários que fabricam os produtos que depois invadem os mercados internacionais.

Jia continua fiel a esse seu sentido do coletivo. Mesmo quando retrata um único indivíduo, seja um trabalhador que se torna matador, ou a recepcionista de sauna (Zhao Tao, sua atriz-fetiche) que mata um cliente abusivo, o cineasta sintoniza seu contexto, seu lugar no mundo.

E, como ninguém, se debruça sobre esse enorme e intrigante planeta chamado China, com uma sede de compreendê-lo por quem faz parte dessa água.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

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