Estréia "Tempo de Embebedar Cavalos"

Há o que se pode considerar uma nítida superioridade da paisagem sobre os interiores, da imagem sobre os diálogos em Tempo de Embebedar Cavalos. Mas o filme de Gahman Ghobadi que estréia amanhã é um dos mais premiados do cinema iraniano. Só no ano passado, em Cannes, foram três prêmios importantes - Caméra d´Or, para o melhor filme de diretor estreante; prêmio da crítica para as mostras não competitivas; e o prêmio da Associação Francesa de Proprietários de Salas de Arte e Ensaio. A esses três prêmios, em maio, Tempo de Embebedar Cavalos acrescentou, em outubro, o de melhor filme da Mostra Internacional de Cinema São Paulo.Pode-se argumentar que o júri da mostra talvez tenha sido esquizofrênico, premiando um filme sofrido e até depressivo como o de Ghobadi e, ao mesmo tempo, dividindo o prêmio com Capitães de Abril, a reconstituição da Revolução dos Cravos feita pela atriz e diretora Maria de Medeiros, e Billy Elliot, o bonitinho, mas supervalorizado filme de Stephen Daldry. Nada mais diferente do leve Billy Elliot que o pesado Tempo de Embebedar Cavalos. Não se assuste com a classificação ´pesado´. Pode ser substituída por "forte". Certas experiências precisam ser intensas quase até o limite do insuportável para serem eficientes na tela.Ghobadi é ator (O Quadro-Negro, de Samira Makhmalbaf). Foi assistente de direção do magnífico Abbas Kiarostami. Abbas valoriza como poucos a paisagem iraniana e Samira também fez de O Quadro-Negro um filme encravado num espaço-tempo definido e fundamental para a própria existência do seu relato. Ghobadi deve ter aprendido essas lições. Deve, não - aprendeu. Tempo de Embebedar Cavalos é a prova.O cinema contou muitas histórias de crianças na guerra. Algumas procuram só emocionar, outras somam à emoção a vontade de fazer questionamentos (ou comentários) de ordem moral. O clássico dessa tendência é Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini, que será homenageado, ainda este mês, com um ciclo de seus filmes no Telecine Classic.São cinco crianças nas paisagens geladas do Curdistão, na fronteira entre o Irã e o Iraque, uma das regiões mais conflagradas do muro. O contrabando é a atividade praticada nesse lugar de fim de mundo. E a sobrevivência é tanto mais difícil para as crianças. Entre elas há uma que é deficiente física, essa maneira politicamente correta de dizer que o menino apresenta deformidades físicas que são congênitas.A cabeça é imensa, ele possui uma corcova e os membros são atrofiados. Um aleijão, em suma. Mas é uma experiência inesquecível ver esse menino, apesar de tudo o que ele e seus amigos sofrem, sorrir. Era o desafio de Ghobadi em Tempo de Embebedar Cavalos. Como ser realista, verdadeiro, sem ser piegas. É um filme que pode até ser doloroso, mas é belo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.