Estréia 'Sweeney Todd', com Johnny Depp, candidato ao Oscar

Filme de Tim Burton concorre a três estatuetas: melhor ator, para Depp, direção de arte e figurino

Luiz Carlos Merten,

08 Fevereiro 2007 | 16h50

Vamos logo começando pela conclusão - Sweeney Todd, que estréia nesta sexta, 8, nos cinemas brasileiros, é o melhor filme do diretor Tim Burton em muitos anos, fato que você só contestará se for um dos fãs incondicionais do cineasta, capaz de ver qualidades até em filmes tão pouco dotados delas, como Big Fish, O Planeta dos Macacos e A Fantástica Fábrica de Chocolate. Burton esperou quase dez anos para realizar sua sexta parceria com o ator Johnny Depp. É um retorno aos bons tempos de Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood, e num projeto tanto mais arriscado porque se trata de um musical sombrio e sangrento. Pode-se até dizer - depressivo.   Veja também:  Trailer de Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet Trailer de 'Sweeney Todd' omite que diálogos são cantados   (Diretor e ator já trabalham juntos há mais de uma década. Prova da intimidade entre eles é que desta vez, Burton faz Johnny Depp cantar... A parceria começou com Edward Mãos de Tesoura, em 1990. Quatro anos depois veio Ed Wood, com a cinebiografia do pior cineasta do mundo, exibido recentemente no canal a cabo. Em 1999, voltaram com A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e em 2005 com A Fantástica Fábrica de Chocolate. Depp emprestou sua voz para a animação por bonecos do filme A Noiva-Cadáver, também de 2005, e agora concorre ao Oscar de melhor ator pelo seu papel como o barbeiro em Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de 2007. O filme concorre ainda ao Oscar pelo figurino e direção de arte) Outra figura freqüente em seus filmes é sua mulher, a atriz inglesa Helena Bonham Carter, com quem tem um filho e uma filha nascida há poucos meses. Tim Burton recebeu o Leão de Ouro do Festival de Veneza em setembro do ano passado pelo conjunto da obra, por ser "um dos cineastas americanos mais valentes, visionários e inovadores, capaz de emocionar e fascinar os mais diferentes e amplos grupos de espectadores", segundo a direção do evento italiano).   O filme   Sweeney Todd virou uma obsessão para Tim Burton desde que ele viu no palco o musical de Stephen Sondheim. A história trata deste homem que vive para se vingar do usurpador que destruiu seu casamento, foi responsável pela morte de sua mulher e agora é tutor de sua filha, por quem nutre uma paixão incestuosa, querendo casar-se com ela. De volta da cadeia - do inferno -, nesta Londres pré-vitoriana, o barbeiro só pensa em se vingar e pavimenta o caminho para seu objetivo com sangue, matando todo tipo de figura que é logo em seguida transformada em carne moída para os deliciosos pastéis que transformam a taverna de Helena Bonham Carter num sucesso sem precedentes.   O assassino que mata suas vítimas e as transforma em lingüiça não é um personagem novo. Existe um caso célebre que faz parte da crônica de horrores de Porto Alegre no século 19, reconstituído por Luiz Antônio Assis Brasil em seu grande livro sobre o dramaturgo Qorpo Santo, A Prole do Corvo. Por sinistra que seja a história, a originalidade de Tim Burton está em contá-la por meio de canto e música. Era intenção do diretor fazer um musical inteiramente cantado, ou pelo menos em que não se percebesse a transição do diálogo para a canção, o que termina sendo muitas vezes um dos pontos débeis do gênero cantado e dançado. E Burton queria que seu musical desse a impressão de preto-e-branco, apenas com o sangue quebrando o tratamento que faz da dessaturação da cor um dos trunfos da realização.   Parque temático   Existem críticos, como o norte-americano Bill Khron, que asseguram que Tim Burton poderia ter sido o maior se não cedesse à influência de seu agente, Martin Ovitz, que desenhou para ele um plano de carreira no qual o sucesso estaria ligado à construção de um parque temático inspirado em seu universo pessoal. Verdadeira ou não, a idéia faz sentido, considerando-se o estilo visual de Burton e sua predileção por um certo tipo de personagem fragilizado e marginal. Sweeney Todd é o mais recente tipo dessa galeria bizarra. A maneira mais fácil de rotular o filme é dizer que se trata de um conto moral sobre um sujeito cujo desejo de vingança termina por destruí-lo. Talvez seja mais do que isso.   Embora o conceito do filme já o perseguisse por uma década, portanto, bem anterior ao célebre 11 de Setembro, Burton terminou por fazer de Sweeney Todd o seu comentário sobre os EUA de George W, Bush. Nisso, seu filme se aproxima de uma obra completamente distinta - Munique, de Steven Spielberg -, mas que também reflete uma espiral autofágica. Qualquer informação mais detalhada sobre o desenrolar do drama pode tirar a graça do desfecho, mas a justificativa do barbeiro para seus crimes - a humanidade não presta, Londres é um esgoto quer reflete a falta de moral de seus habitantes - vira uma falácia quando se descobre que o moto da vingança é falso. Os 10 ou 15 minutos finais talvez sejam o melhor que Tim Burton já filmou e a sua Pietà inscreve-se, desde logo, entre as maiores do cinema. Johnny Depp canta. Foi o grande desafio que o diretor lhe propôs. Há dez anos, talvez tivesse sido prematuro. Agora, como reconhece Tim Burton, o timing foi perfeito.

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