Estréia segunda parte de "O Boulevard do Crime"

Com a entrada em cartaz da segunda parte de O Boulevard do Crime, o espectador paulista poderá ver, na íntegra, a obra-prima de Marcel Carné. O que havia, antes, era apenas a primeira parte, o que deixava o espectador em suspenso, sem saber o que iria acontecer do tumultuado caso de amor entre o mímico Baptiste (Jean-Louis Barrault) e a atriz Garance (Arletty). A história se passa em 1830, no boulevard du Temple em Paris, onde se concentravam os teatros, cabarés e a vida boêmia. A direção é de Carné e o texto, do escritor e poeta Jacques Prévert. Os dois colaboraram em sete filmes.Outro dado importante sobre O Boulevard do Crime: ele foi rodado entre 1943 e 1945, ou seja, foi um esforço artístico desenvolvido na França ocupada pelos nazistas. O apelo libertário corre em filigrana por uma história de amor e ódio, atravessada pela velha questão dos limites entre a ficção e a realidade. Há outros personagens notáveis além de Garance e Baptiste. São eles o ator Fréderick Lemaitre (Pierre Brasseur), que deseja Garance; Nathalie (Maria Casars), que ama Baptiste. E Lacenaire (Marcel Herrand), o bandido-filósofo que encarna o Mal em todas as suas formas.Carné e Prévert desejaram, num momento de humilhação nacional, saudar o espírito francês, brilhante, verbal, cheio de refinamento e presença de espírito. Diálogos desse nível (nem sempre bem traduzidos nas legendas) somente são possíveis num país com a densidade literária da França. Literatura - Não poucas vezes o filme, batizado no original de Les Enfants du Paradis, foi atacado por ser literário. Tudo, nele, poderia ser condenado por seu artificialismo, da fala empostada dos atores ao cenário. De fato as ruas de Paris são ostensivamente montadas em estúdio. Tudo é cenário, teatro e literatura. No entanto, dessa carpintaria do artifício sai uma obra tocante.E por quê? Porque o cinema não precisa se restringir obrigatoriamente à linguagem realista. Não precisa esconder seu artificialismo para atingir a autenticidade. Um filme como este faz apelo à capacidade de imaginação do público. Aquela mesma que permite ao espectador do teatro se emocionar quando sabe o tempo todo que está diante de um palco e de atores que representam papéis.No cinema, essa é uma linha mais rara, mas não inexistente. O Boulervard do Crime pertence à mesma família de Lola Monts, de Max Ophuls, E la Nave Va, de Federico Fellini, Mélo e Smoking, No Smoking, ambos de Alain Resnais. São filmes que não disfarçam seus artifícios de representação. Recusam a ilusão imediata do realismo para capturar o espectador num tipo que se poderia chamar de ilusão elevada à segunda potência. Sabe-se que se está diante do "falso", mas este falso, por sua força e arte, tem mais poder de verdade que a realidade.Fala-se da qualidade literária dos diálogos, da força dos cenários e da capacidade dos atores para explicar o sucesso de O Boulevard do Crime - e tudo isso é verdade. Mas há também uma força oculta que vem do trabalho de linguagem na fronteira entre a realidade e a ficção. Toda a história se desenvolve em dois planos: nos espetáculos que são mostrados "dentro" do filme e nas ações dos atores quando não estão representando. Assim, por exemplo, Baptiste pode dizer seu amor por Garance com mais liberdade quando está no palco do que na "vida real". Como esta vida real é na verdade uma ficção aos olhos do espectador, a fronteira fica cada vez mais tênue. Esse trabalho da arte, que embaralha os limites, é talvez o que haja de mais encantador e permanente neste grande filme. Serviço - O Boulevard do Crime - Segunda Época (Les Enfants du Paradis). Direção Marcel Carné. Fr/44/45. Duração 100 minutos.

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