ESTREIA-Premiado em Veneza, drama grego "Miss Violence" aborda o tabu do incesto

Há muito tempo, a Grécia ocupa o imaginário como berço do teatro, da filosofia e da própria civilização ocidental. Nos últimos anos, o país europeu tem tido sua imagem abalada, descrita como território de uma crise econômica sem fim.

REUTERS

24 Setembro 2014 | 16h05

As duas Grécias, de várias maneiras, se cruzam em “Miss Violence”, drama do jovem diretor Alexandros Avranas que conquistou, em 2013, dois merecidos troféus no Festival de Veneza: o Leão de Prata de melhor direção e a Copa Volpi de melhor ator para o impressionante Themis Panou, um ator originário do teatro que interpreta o patriarca de uma família disfuncional.

O filme estreia em São Paulo, Recife e Fortaleza.

Há um clima nelson-rodriguiano nesta história de um clã dominado pela figura de um patriarca (Themis Panou), que vive com a mulher (Reni Pittaki), a filha Eleni (Eleni Roussinou) e quatro crianças, que poderiam ser seus netos. O homem, de meia-idade, sai todos os dias para trabalhar.

As crianças vão à escola e as duas mulheres cuidam da casa. A máscara de normalidade da família começa a ruir quando ocorre o suicídio de uma das meninas, Angeliki (Chloe Bolota), no dia de seu 11º aniversário, e o serviço social investiga o fato.

A tensão permanente é construída com muita eficácia pelo diretor, a partir de uma fotografia de cores dessaturadas, em tons marrons e, mais ainda, por uma direção de atores que trabalha no sentido de desdramatizar a expressão dos sentimentos. Na verdade, no entanto, transmite com precisão a incrível repressão e o pacto de silêncio diante das relações anormais que vigoram dentro da família.

Afinal, as gestações de Eleni se sucedem sem que haja nenhuma outra figura masculina no clã, exceto o pai. E as meninas veem com medo sua aproximação da puberdade.

Não pode deixar de ser incômoda a crueza com que os personagens infantis são submetidos a situações de humilhação ou de violência.

Na coletiva de apresentação do filme, em Veneza, o diretor inclusive comentou este assunto, esclarecendo que a temática de sua história havia sido exaustivamente debatida tanto com seus jovens atores, quanto com seus pais, para garantir que nenhum limite indesejável fosse ultrapassado.

E que sua intenção, ao fazer o filme, era no sentido de uma denúncia e tomada de consciência em relação à violência doméstica escondida entre as quatro paredes dos lares.

Ao pôr o dedo na ferida, o diretor expõe um mal que é discutido hoje nos quatro cantos do mundo. E, por mais surreal que o filme possa parecer, casos verídicos recentes, na Europa e nos EUA, fornecem a este drama forte, rigoroso, estética e dramaticamente muito bem-construído, uma trágica atualidade.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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