Estréia "Parque dos Dinossauros 3"

Nunca se viu coisa igual: a United International Pictures (UIP), que distribui Parque dos Dinossauros 3, mostrou na terça-feira o filme de Joe Johnston para a imprensa do Brasil. Queria que os jornalistas firmassem um documento comprometendo-se a não publicar suas críticas sobre o filme antes de hoje. Mesmo sem assinatura, prevaleceu o acordo verbal, de cavalheiros. Parque dos Dinossauros 3 estreou hoje nos EUA. Estréia sexta-feira, oficialmente, no País, mas já está sendo exibido o dia inteiro em pré-estréias abertas ao público. Ou seja: na prática, já estreou.Você até pode intuir o objetivo da UIP. A empresa queria assegurar-se de que Parque dos Dinossauros 3 não receberia críticas negativas antes que o boca a boca começasse a funcionar aqui ou chegassem as repercussões na bilheteria de lá. A surpresa é constatar que o filme não é tão ruim. Não é pior que os dois primeiros, dirigidos por Steven Spielberg. Bem, que o primeiro talvez seja, mas lá havia o ineditismo dos dinossauros, o que contribuiu para o impacto. Melhor que o 2, com certeza, é, mas aí não quer dizer muito, porque o filme, apesar de Spielberg (apesar?), é um compêndio de vulgaridades estéticas e facilidades emocionais.Um crítico já escreveu, aqui mesmo no Caderno 2, que Spielberg é um cineasta democrático. Trata do mesmo jeito seus dinossauros, o Holocausto (em A Lista de Schindler) e o Dia D (em O Resgate do Soldado Ryan). Transforma tudo em parques temáticos, nos quais o espectador, alvo de manipulação, termina reagindo como o cachorrinho das experiências de Pavlov. Não que Johnston, o diretor de Parque 3, não seja manipulador. Mas ele talvez seja mais subversivo, para não dizer honesto. E tem humor, o que ajuda bastante. Ele usa os monstros antediluvianos como motores da história, mas seu tema é outro. Parque 3 é um filme sobre a família. O começo é episódico, só mais tarde as peças do quebra-cabeça vão sendo montadas pelo espectador. Logo no começo, um garoto e um adulto praticam parapant. O esporte radical é brutalmente interrompido quando ocorre um acidente com a lancha à qual estão amarrados e a dupla é lançada sobre a Ilha Sonar, interditada para turismo.Há um corte e entra em cena o personagem do paleontologista interpretado por Sam Neill. Ele visita sua colega dos filmes anteriores (Laura Dern). Vai levar-lhe o resultado de suas pesquisas, que apontam para um sofisticado sistema de comunicação de algumas espécies de dinos. A história, propriamente dita, só rola depois dessas cenas. Neill e seu jovem assistente são atraídos por um casal de milionários à Ilha Sonar, reduto dos dinos. Na verdade, não são milionários, mas os pais - separados - do menino que desapareceu no local.A história trata da busca do menino e da nova onda de destruição provocada pelos dinos carnívoros, que chegam a falar entre eles, montando estratégias de destruição dos humanos. No processo, o casal acerta suas diferenças e a família se recompõe. Johnston, o diretor de Rocketeer e Jumanji, parece que vai exagerar no moralismo ao punir o assistente de Neill, por sua conduta que o herói considera antiética. O rapaz arrisca a própria vida para redimir-se.O desfecho pode ser previsível no todo, mas oferece algumas novidades nas partes. Há ironias sobre embaixadas dos EUA na América Latina, mas isso não impede que os marines, americanamente, entrem em cena para ser os salvadores da pátria. E a tecnologia de ponta rende um momento admirável quando a embarcação desliza com os dinos bonzinhos e um dos herbívoros alonga o pescoço para contemplar os intrusos sem agressidade, quase roçando a câmera com a candura de seu olhar milenar.

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