Estréia o primeiro longa de Jorge Furtado

Quando se fala em filme para jovemse pensa naquele tradicional besteirol norte-americano, de QIzero e capricho no mau gosto. Ou, ao contrário, em produçõesbem-intencionadas, porém didáticas, explicativas e muitas vezesmoralistas. Driblando esses dois extremos, Houve uma Vez DoisVerões, estréia no longa-metragem de Jorge Furtado, parece umverdadeiro refresco. Inteligente sem ser chato, fala a línguados jovens, mas pode muito bem levar marmanjos ao cinema. Afinal, todo mundo já foi jovem um dia e, se não tiver se tornado umcompleto idiota, se lembrará de como era bom, e como eraangustiante, ter uns 15 ou 16 anos de idade e estar numa praiaem busca de aventura sexual.É o que acontece com os inexperientes Juca (PedroFurtado, filho do diretor) e Chico (André Arteche). Eles são dePorto Alegre, passam as férias na praia, meio fora de temporada,porque é mais barato. Só estão a fim "daquilo". Chico estájogando videogame quando pensa que chegou sua hora e vez aoconhecer uma certa Roza (sim, com "z", como ela insiste), maisou menos da idade dele, mas conhecedora de duas ou trêscoisinhas que ele ignora. Roza é interpretada por Ana MariaMainieri, uma garota que você vê na piscina e talvez nem liguemuito. Na tela, vira uma ninfeta explosiva.Pelo menos é assim que ela aparece aos olhos de Chico, einteressa isso mesmo, o ponto de vista do personagem, não o meuou o seu. Porque o fio narrativo do filme é esse, uma iniciaçãosexual e amorosa - tema que interessa a 100% da humanidadequando está na puberdade. E, se for bem contada, continua ainteressar se não a todas pelo menos à maioria das pessoassadias.No filme, o problema de Chico será como administrar alibido e a paixão por alguém que, ele irá comprovar, não parecenem um pouquinho confiável. Há uma beleza talvez em segundoplano nesse filme despojado, e que envolve a natureza mesma doato amoroso. Ninguém é realista quando está apaixonado. Quandose consegue ser objetivo, é porque a paixão já era. Quando temuma decepção com o ser amado, o que acontece não é que odecepcionado comece a mentir para si mesmo. Isso seriasimplista. Ele passa é a desenvolver um tipo elaborado deraciocínio, talvez delirante, que consistirá em atribuir razõese motivações ocultas para o ato da pessoa amada, de tal formaque esse ato passe a ser, se não desculpável, pelo menoscompreensível. E assim manterá a crença na previsibilidade docomportamento do outro, e alimentará a esperança no futuro.Quando esse mecanismo for desmontado, será sinal de que a paixãopassou, como passam os verões.Essa historinha de iniciação nas coisas do amor écontada da forma a mais simples possível. Deve ter custado umtrabalho danado, pois, como se sabe, a simplicidade é virtudeque exige muita transpiração. Por isso, diálogos que fluem comfacilidade são raros no cinema. Não no brasileiro - em qualquercinema. No filme estrangeiro, como o espectador é um leitor delegendas, tudo parece natural, mas é engano. Em todo caso, osatores de Houve uma Vez Dois Verões falam como os garotos daidade deles, o que é um tremendo ponto a favor de um filme quebusca a clareza na exposição das suas idéias.Nesse verão meio crepuscular proposto por Jorge Furtadohá muito material para reflexão. Não apenas sobre os jovens eseus caminhos, mas também sobre o futuro do cinema brasileiro.Há novas maneiras de filmar pintando por aí. Elas dialogam com apublicidade, com a TV, com as mídias digitais, sem preconceitos.Vamos esnobá-las, ou esperar que desapareçam por si sós como asespinhas da adolescência?Houve Uma Vez Dois Verões. Comédia. Direção de JorgeFurtado. Br/2001. Duração: 75 minutos. 12 anos.

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