Estréia o novo documentário de Masagão

Marcelo Masagão virou um caso docinema brasileiro quando seu (falso) documentário Nós Que aquiEstamos por Vós Esperamos provocou polêmicas sobre o uso que oautor faz da montagem. Masagão é o Dziga Vertov do documentáriobrasileiro. Valeu-se, naquele filme, de imagens reais (ealheias) para tecer ficções. E quis discutir o imbróglio moral epolítico do século 20, a banalização da morte como uma tragédiacontemporânea. Nós Que aqui Estamos é ousado e criativo. Acriatividade está de volta em Nem Gravata nem Honra, queestréia amanhã. A ousadia, talvez, um pouco menos. O novotrabalho de Masagão assemelha-se mais a um documentáriotradicional, embora seja original a subversão que ele insere nopróprio relato.O cineasta escolheu uma cidade do interior de São Paulo.Fornece uma série de dados estatísticos que compõem uma espéciede estudo antropológico sobre Cunha. Na verdade, após situar oespectador em relação à cidade, o que lhe interessa é discutiras relações entre homens e mulheres. Jogar conversa sobre comoos homens, numa cultura machista, vêem as mulheres e como elasretribuem esse olhar. Não falta o gay da cidade, que dá seudepoimento sobre certos desvios do comportamento hétero emCunha. Essas entrevistas filmadas por Masagão não foram feitasinteiramente por ele. Algumas, sim, mas outras, talvez a maioria, foram feitas por cinegrafistas que seguiam suas orientações.De novo imagens alheias, parcialmente, pelo menos. E,agora, mais palavras, porque Nem Gravata nem Honra, aocontrário de Nós Que aqui Estamos, é intensamente falado.Pode-se rir desses depoimentos, embora o risco seja o de quesejam considerados preconceituosos. Seria não entender oconceito de Nem Gravata nem Honra. O toque brilhante deMasagão foi ter voltado a Cunha e confrontado as pessoas com ospróprios depoimentos. É o que faz o charme particular do filme.Mais do que qualquer outro documentarista brasileiro daatualidade, Masagão filma para repensar o papel do espectador.Os próprios personagens de Nem Gravata nem Honra viramespectadores, lá pelas tantas. E nós, o público, estamos o tempotodo ligados, viajando nas imagens, nas falas, nos ritmoscubanos. Masagão, que ama o cinema, nos convida a compartilhar oprazer de ver filmes. O que ele tenta nos convencer - a nós,espectadores - é que ver filmes é tão necessário e prazerosoquanto viver.Nem Gravata nem Honra. Documentário. Direção deMarcelo Masagão. Br/2001. Duração: 75 minutos. Livre.

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