Estréia o épico gaúcho "Netto Perde Sua Alma"

Desde que voltou do exílio - foi morar na Dinamarca e, depois, em Portugal para fugir ao regime militar -, o escritor gaúcho Tabajara Ruas trabalhava em casa, de forma muito solitária, escrevendo seus textos e editando publicações especiais. Cansou-se disso. Formado em cinema por uma escola dinamarquesa, Ruas sempre sonhou com a realização de um filme para testar seus conhecimentos sobre o assunto. A oportunidade surgiu quando houve o concurso da RGE, Rio Grande Energia, que investiu mais de R$ 3 milhões na realização de três filmes. Com dois parceiros, o também diretor Beto Souza e o produtor Esdras Rubim - cujo nome é indissociável da história do Festival de Gramado -, Ruas inscreveu Netto Perde Sua Alma no concurso. O filme foi selecionado. Exibido em vários festivais do País e do exterior, ganhou prêmios para a sua fotografia, para a direção de arte e a montagem e também, ou principalmente, para o ator Werner Schunnemann, que interpreta o papel-título.Netto estréia nesta sexta-feira em SP. É um belo filme. Talvez tenha de vencer alguma resistência do público. Épico e intimista, o filme é uma produção gaúcha e aí começa o estranhamento. Os gaúchos dizem tu, usam bombachas e sua paisagem - uma horizontalidade de campos expostos ao sol ou que ondulam ao vento - quase não faz parte do imaginário do brasileiro, ou não faz parte. O co-diretor de "Netto" explica isso calmamente, sem ressentimento algum. Beto Souza lembra que, mais do que o cinema, é a televisão que esculpe o imaginário do povo brasileiro. A Globo produz duas novelas por ano. Uma é urbana e se passa no eixo Rio-São Paulo, a outra se passa invariavelmente no Nordeste, não o Nordeste real, mas aquele recriado e ficcionalizado por Aguinaldo Silva. De vez em quando a Globo põe o Rio Grande do Sul na telinha. Já fez O Tempo e o Vento, mas no formato de minissérie, não como telenovela. O sertão, portanto, é aquela cara do Brasil que o público identifica na TV e no cinema. O sertão da Globo, mas também o de Glauber. Já o pampa permanece mais secreto. Não se intimida com observações do tipo "o General Netto é um personagem regional sobre o qual você nada sabe", "a política gaúcha é complicada, com todas aquelas histórias de revoluções e de choques entre chimangos e maragatos". Nada disso é relevante. Ou melhor, é tudo relevante, mas você também não sabe nada sobre samurais e isso não o impede de admirar os filmes de Akira Kurosawa - que é, aliás, uma das devoções de Tabajara Ruas, com David Lean e Glauber Rocha. Ruas observa que os gaúchos também conhecem pouco e até desconhecem o general Antônio de Souza Netto, que lutou nas guerras dos Farrapos e do Paraguai, comandando sua cavalaria de lanceiros negros. A primeira foi a guerra que os chamados farroupilhas levaram contra o Império Brasileiro, no século 19, quando tentaram criar uma República. Netto foi o fundador da República Rio-Grandense, uma cena épica, que termina com a bandeira gaúcha das três cores - vermelho, amarelo e verde - tremulando. Na continuidade da cena, a bandeira fica em frangalhos e essa é bem a idéia por trás do filme. O épico de Ruas e Souza é, na verdade, um antiépico. Em vez de cercar seu personagem de ufanismo, prefere desmistificá-lo. O sonho republicano e abolicionista de Netto não se concretiza. É a história de uma derrota, mas no sentido mais nobre. Luchino Visconti também dizia que gostava de contar as histórias de sonhadores cujos sonhos eram destroçados pela realidade. E acrescentava: seus personagens preferidos eram sempre projeções dos Viscontis de ontem e de hoje. Apesar da verba inicial, fornecida pelo Prêmio RGE, a produção de Netto foi complicada e o filme teve de ser interrompido por falta de recursos. Retomado, precisou de uma terceira etapa de filmagem para acrescentar a parte, digamos, documentária que completa a ficção. Por se tratar de um filme grande, com cenas de batalhas e tudo o mais, Ruas e Souza fizeram um storyboard, que tentaram seguir à risca. "Mas às vezes o Beto pirava e a gente improvisava no set", conta Ruas. Não é um filme perfeito - aquela imagem da aranha em primeiro plano incomoda e não está bem situada na arquitetura dramática - mas é ideológica e esteticamente consistente. Não há bairrismo quando o crítico de Porto Alegre Hélio Nascimento diz que é um dos maiores filmes do seu gênero, se não o maior, já feito no Brasil. Nascimento não é homem de elogiar só por ter sido feito por prata da casa. Na origem do filme está o livro do próprio Tabajara Ruas, que escreveu o roteiro com a colaboração de Beto Souza, de Lígia Walper, sua mulher e montadora de Netto, de Fernando Mares e Rogério Brasil Ferrari. Ruas discutia as sugestões de cada um, mas escrevia sozinho. Ele credita o formato do filme a Mares, que defendeu mais do que o próprio autor a manutenção do formato do livro, e a Ferrari, porque sugeriu que o hospital fosse o cenário referencial ao longo de toda a história. Os flashbacks de Netto, os vaivéns da narrativa, podem ser creditados às viagens da mente de um homem que delira sob o efeito de morfina num hospital. O mais importante, Ruas assinala, é o seguinte. Não é um filme sobre um herói. É um filme sobre os fantasmas da consciência que afligem um homem. Termina com uma referência a Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, quando o barqueiro que faz a travessia das almas vem cobrar de Netto a derradeira viagem.Serviço - Netto Perde Sua Alma. Drama. Direção de Tabajara Ruas e Beto Souza. Br/2001. Duração: 102 minutos. Espaço Unibanco 1, às 14 horas, 16 horas, 18 horas, 20 horas e 22 horas. 14 anos

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