Estréia O Buda, filme do argentino Diego Rafecas

Ele é muito diferente do personagem que interpreta em O Buda. Diego Rafecas está em São Paulo participando do 1.º Festival de Cinema Latino-Americano. No filme que dirigiu - e que estréia nesta sexta-feira -, ele próprio interpreta Rafael, o racional (e cético) professor de filosofia que se opõe ao irmão mais jovem, consumido pela busca da espiritualidade. Na verdade, esses dois personagens compõem diferentes partes de Rafecas, cineasta argentino que estudou filosofia e se converteu em monge zen. "Todos somos dois", ele afirma, acrescentando que os personagens de O Buda são exacerbações dessa divisão. "Não sou nem um nem outro. O filme é uma obra de ficção."Que surgiu de uma experiência que Rafecas teve com uma monja, cujos pais haviam sido vítimas da repressão política. Ele sempre se admirava da serenidade com que ela transcendeu a própria dor. Quis fazer um filme sobre isso. O começo de O Buda é de um típico filme argentino sobre os anos de chumbo - uma casa é invadida por policiais; o marido, que um instante antes estivera fazendo exercícios budistas de espiritualização, é preso com a mulher e os filhos, em seguida, são abandonados na porta da casa da avó. Corte para uma época mais recente. Os dois irmãos trilharam caminhos diversos. Viraram opostos.Rafecas admite que seu filme é mais existencial do que político e, neste sentido, pode parecer um pouco estranho no contexto do cinema latino atual e do argentino, em particular. Ele não quis fazer um filme de doutrinação, O Buda não é seu manifesto do pensamento zen. "Quis fazer um filme abordando assuntos graves, mas que fosse ´entretenido´ (divertido) para todos, não para iniciados." O público gostou. Na Argentina, onde o budismo é prática de poucos, O Buda fez 70 mil espectadores. E Rafecas tem corrido mundo com seu filme. Viu-o ser aplaudido na Coréia, na Itália, nos EUA. Essa universalidade, ele acredita, vem da frase do mestre, que diz, lá pelas tantas, que o zen não é dono de nenhuma verdade.É um filme sobre a busca, portanto. Quando o jovem se lança numa viagem espiritual, em busca do grande mestre, o irmão o acompanha e a enquete de ambos termina abarcando a maior de todas as questões - quem somos? De onde viemos? Qual o sentido de nossa presença na Terra? A questão da identidade torna-se essencial, no filme como no cinema latino-americano. Rafecas está vendo muitos filmes em São Paulo (vai embora hoje). Tem participado de encontros e discussões, mas admite que tem dificuldade para entender a tal identidade latina. "Somos diversos, culturalmente, e é a diversidade que faz nossa força, nossa riqueza." O filme começa num contexto político para romper com ele, mas a ausência do pai vai marcar a trajetória dos irmãos. Não por acaso, Rafecas encerra O Buda no reencontro com o pai - um reencontro imaginário, que tem um valor dramatúrgico comparável ao do professor Isak Borg com seu pai, no desfecho do clássico Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. De volta ao começo, Diego é diferente de Rafael, seu personagem. Não é aquele professor austero. Aos 36 anos, usa tatuagem, é falastrão. Ele veste o traje tradicional de um monge zen? "Só quando medito", explica. O Buda (Un Buda, Argen/ 2005, 110 min.) - Drama. Dir. Diego Rafecas. Unibanco Arteplex 7 - 14h10, 16h40, 19h10, 21h40 (sáb. também 0 h). Cotação: Regular

Agencia Estado,

14 de julho de 2006 | 10h43

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