Estréia, no Brasil, o filme político Syriana

Ele já foi comparado ao lendário Clark Gable, que interpretou Rhett Butler no cult ...E o Vento Levou. Como Gable, George Clooney possui essa característica única de agradar a espectadores de ambos os sexos. As mulheres o acham sedutor; os homens o acham confiável, o tipo do sujeito com quem se pode ter uma relação de camaradagem. Clooney é um dos grandes personagens no Oscar de 2006 e talvez seja o maior. Conseguiu emplacar dois dos filmes mais explicitamente políticos da competição, pelo menos entre os concorrentes americanos. Boa Noite e Boa Sorte, que ele interpreta, dirige, produz e co-escreve, concorre a melhor filme e direção e, com mais quatro indicações, está empatado com Munique, de Steven Spielberg, e Memórias de Uma Gueixa, de Rob Marshall, logo após o campeão O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, que foi indicado para oito categorias. Clooney também concorre a melhor ator coadjuvante por Syriana e o filme de Stephen Gaghan, que ele produz, ganhou mais uma indicação, a de melhor roteiro. Grande George Clooney. Além de ser charmoso, bonitão e de ter no currículo as amizades mais vistosas da Hollywood liberal, Clooney representa hoje a mais sólida oposição ao presidente George W. Bush dentro do cinemão. E não é de hoje. Em 2002, quando concorreu no Festival de Berlim com sua estréia como diretor, Confissões de Uma Mente Perigosa, Clooney já havia esculhambado o atual presidente e olhem que o 11 de setembro ainda era recente, tendo produzido uma onda de paranóia que Bush filho desde então não cessou de explorar em benefício próprio. Em Boa Noite e Boa Sorte, Clooney recorre a um episódio de resistência ao macarthismo para discutir a imprensa na era Bush. Em Syriana, o assunto é igualmente espinhoso e até mais - a sempre delicada questão do petróleo e o jogo de alianças e pressões, envolvendo corrupção e violência, que cerca o combustível que movimenta as sociedades de consumo, especialmente as superdesenvolvidas, como a dos EUA. Não existe, em Syriana, nenhuma referência direta ao Iraque, mas é evidente que o nó górdio de tudo é a guerra na qual os EUA se atolaram. Bush invocou a luta contra a ditadura de Saddam Hussein e o perigo de armas de destruição em massa para justificar a invasão, mas seus motivos são outros, como também sugere, a partir da guerra de Bush pai, o Sam Mendes de Soldado Anônimo. Syriana é melhor. O filme foi escrito pelo próprio diretor Gaghan, que já havia recebido o Oscar pelo roteiro original de Traffic. Como o daquele filme, o de Syriana também se estrutura numa série de histórias e situações que vão sendo cruzadas, de forma a tecer um painel amplo, não propriamente uma história. Como diretor e roteirista, Gaghan assemelha-se a Robert Altman. Ambos assimilaram uma lição de Luis Buñuel, que, a partir de O Discreto Charme da Burguesia, passou a soltar sua câmera e a armar cenas da vida para refletir sobre o homem e o mundo. As cenas de Buñuel eram muitas vezes surrealistas; as de Gaghan propõem, na maioria das vezes, um realismo assustador. Gaghan, em nome do entendimento, não idealiza o mundo árabe. O sentimento antiamericano dos islâmicos é forte em Syriana, os americanos são corruptos e os árabes, como diz o personagem de Matt Damon, não sabem direito o que fazer com a fortuna (o petróleo) sobre a qual estão assentados. Há um século, eram tribos esparsas no deserto. Dentro de um século, voltarão a sê-lo, ele vaticina, antecipando a nova cruzada que o Ocidente ainda vai lançar contra o mundo árabe. Neste quadro, os conglomerados, base das economias globalizadas, praticam a mais velha das estratégias de dominação - dividem para enfraquecer o inimigo e consolidar seu poder. Existem dramas íntimos, relações afetivas, famílias destruídas, mas o foco está na política. Clooney faz o papel de Bob Barnes, um espião inspirado na figura real de Bob Baer, que nos anos 1980 e 90 foi agente da CIA no Oriente Médio, ajudando a estabelecer alianças ameaçadas pela guerra de Bush pai e decididamente quebradas após o 11 de setembro. Numa cena terrível, Barnes é vítima de uma tortura brutal. A cena pode ajudar na candidatura de Clooney para o Oscar de coadjuvante - e seria um prêmio importante para ele -, mas não vai ser fácil derrotar o favorito Jake Gyllenhaal, de O Segredo de Brokeback Mountain. Ao separar as candidaturas de Gyllenhaal e seu companheiro de elenco, Heath Ledger - ambos protagonistas -, os votantes da academia já queriam impedir que ambos terminassem se anulando. Clooney pode até não levar a estatueta, mas com todas essas indicações já é o homem do ano neste Oscar.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2006 | 11h57

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