Estréia <i>Uma Verdade Inconveniente</i>, com Al Gore

Para que ficcionalizar, se a verdade consegue ser tão impactante - além de inconveniente? Nos últimos anos, o cinema tem patrocinado fantasias científicas para discutir o futuro da Terra, ameaçada pela destruição ambiental que corrói o meio ambiente e ameaça nosso futuro. O alemão Roland Emmerich, sempre apolítico - Independence Day e Godzilla -, fez O Dia Depois de Amanhã, sobre as mudanças climáticas. Esqueça a má ficção daquele filme e preocupe-se com a dura realidade que é revelada por Uma Verdade Inconveniente, o documentário de David Guggenheim que estréia nesta sexta-feira. É um filme de terror travestido de documentário. Seu forte não é o aspecto cinematográfico e você até chegará facilmente à conclusão de que já viu documentários mais ousados - e melhores. Dificilmente terá visto outro tão assustador. Quem comanda o show é Al Gore, deputado, senador e vice-presidente dos EUA, nos dois mandatos de Bill Clinton. Ele concorreu à presidência com George W. Bush e, até hoje, Spike Lee sustenta que Bush filho só se elegeu graças à fraude patrocinada por seu irmão, que governava a Flórida, e criou aquele caso com eleitores negros, que foram impedidos de votar em distritos que teriam dado a vitória a Gore no Colégio Eleitoral. Gore perdeu a eleição, deixou de ser presidente dos EUA e o mundo talvez fosse outro, se ele hoje presidisse os EUA. Gore perdeu a presidência, mas não a militância. Antes mesmo de ser o vice-presidente de Clinton ele já percorria os EUA (e o mundo) dando palestras sobre os riscos do aquecimento global. Antigamente, e não faz muito tempo, o rombo da camada de ozônio era o grande vilão da ecologia, ameaçando com a destruição da vida na Terra. Foram criadas políticas públicas (e ambientais) para enfrentar o problema. O risco agora é outro - o aquecimento. O desmatamento, a poluição ambiental e outros procedimentos típicos do desprezo humano pela natureza estão provocando o aquecimento acelerado da Terra. Previsões que eram apocalípticas para o final do século agora já projetam para décadas antes o risco que o degelo pode representar para países (e grandes cidades) do planeta. Em Cannes, em maio, onde Uma Verdade Inconveniente ganhou uma sessão especial (de gala), Al Gore vestiu-se de black-tie para duas conferências. Uma é a do filme, que recorre a gráficos, fotos e, naturalmente, ao magnetismo pessoal e ao poder de persuasão do político para nos dar conta do risco que corremos. A outra foi a da coletiva concorridíssima que Gore deu, reforçando aquilo que, por ventura, não tivesse ficado claro no filme de Guggenheim (mas é claro). Ele une duas características, o didatismo e o humor, para nos levar à reflexão com dados científicos que são, cada vez mais, irrefutáveis. Num certo sentido, pode-se fazer uma ponte entre Fahrenheit - 11 de Setembro e Uma Verdade Inconveniente. Como Michael Moore em seu documentário sobre o ataque ao World Trade Center, que discute a ligação da família do presidente George W. Bush com a de Osama Bin Laden e a utilização política que ele fez do combate ao terrorismo, Guggenheim e Gore também procuram ser críticos do atual ocupante da Casa Branca. Moore manipula mais para alcançar seus objetivos, mas a verdade, assustadora mais do que inconveniente, é que o mundo que Guggenheim e Gore mostram simplesmente não tem futuro, pelo menos para a Terra, como a conhecemos. Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth, EUA/2006, 100 min.) - Documentário. Dir. Davis Guggenheim. Livre. Bristol 5 - 13h30, 15h30, 17h30, 19h30, 21h30 (6.ª e sáb. também 23h40). Iguatemi Cinemark 2 - 12h30, 14h50, 17h10, 19h30, 21h40, 23h55. Market Place Playarte 1 - 13, 15, 17, 19, 21 h (6.ª e sáb. também 23h30). Reserva Cultural 2 - 14, 16, 18, 20, 22 h. Unibanco Arteplex 4 - 13h30, 15h30, 19h10, 21h20 (sáb. também 0 h). Cotação: Bom

Agencia Estado,

03 Novembro 2006 | 10h34

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