Estréia <i>O Cheiro do Ralo</i>, um forte candidato a cult

Selton Mello ainda se lembra do mal-estar, durante a exibição de O Cheiro do Ralo no Festival do Rio. O público ria durante a exibição do filme que Heitor Dhalia adaptou do romance de Lourenço Mutarelli. Selton gelou. "Onde foi que erramos?", pensou. Ou então era alguma coisa tipo - "Eles não estão entendendo nada". Depois, nos festivais internacionais de que O Cheiro do Ralo participou - Sundance, Punta Del Este, Miami -, a reação do público era sempre a mesma e Selton começou a relaxar. Ele próprio passou a ter uma nova percepção do filme que estréia nesta sexta, 23. Será um lançamento pequeno - 15 cópias distribuídas entre Rio, São Paulo e Brasília. O maior número deverá estar no Rio, pois a distribuidora Filmes do Estação é de lá. Foi um caso de amor à primeira vista. Mal O Cheiro do Ralo passou no festival, Filmes do Estação já estava fechando negócio para distribuir o trabalho de Heitor Dhalia. Foi um filme feito com pouco dinheiro - R$ 300 mil para colocar O Cheiro na lata, mais R$ 300 mil para finalização e pós-produção, em torno de R$ 200 mil para o lançamento. No total, cerca de R$ 800 mil, menos que um B.O, uma produção de baixo orçamento, que hoje está orçada em R$ 1 milhão Ótimo filme baixo Essa coisa de custo não interessa muito (ou nada) ao espectador, que quer saber se o filme que vai ver é bom, o que não deixa de ser outra forma de dizer - quer saber se o dinheiro foi bem empregado ou não. O Cheiro do Ralo é ótimo. Talvez seja um filme para pequenas platéias, para um segmento mais sofisticado do público, mas Selton e Dhalia acreditam na comunicação. "Em toda parte, a reação é boa. Existem manifestações pontuais. No Sundance, por exemplo, o público riu muito quando eu dispenso a noiva, dizendo que não gosto dela e não quero mais casar." A rude franqueza de O Cheiro do Ralo balançou os americanos politicamente corretos. O Cheiro do Ralo trata de um universo bizarro e de um personagem - um homem que compra e vende objetos usados - para dar uma sombria visão da humanidade. Isso está no livro de Mutarelli, mas também é uma característica dos diretores que Dhalia adora - Stanley Kubrick é o preferido. Ele agradece por ter feito "Nina", antes. O universo bizarro, o jogo da obsessão e do poder, o próprio conceito visual, tudo aproxima os dois filmes. "Nina foi um filme de afirmação. Radicalizei. Não me arrependo, mas aqui senti que tinha de segurar no freio de mão e dar uma aliviada." O filme sobre solidão urbana, sobre neuroses, narrado com leveza tem feito rir o público. O personagem de Selton é vil, torpe. Ele poderia errar o tom na interpretação. Acertou. Para o ator, O Cheiro é a história de um canalha que se redime por amor a um derrière.

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