Estréia <i>Babel</i>: vencedor do Globo de Ouro, favorito ao Oscar

Um casal de americanos passeia peloMarrocos, ela leva um tiro e o marido tem de fazer o diabo paraconseguir salvar sua vida em terra tão inóspita. Nos EstadosUnidos, uma babá mexicana vê-se obrigada a atravessar afronteira com as duas crianças americanas de que toma conta paracomparecer a um casamento da família. Na volta, enfrenta sériosproblemas. No Japão, uma surda-muda tem um pai que é procuradopela polícia de Tóquio. São essas as tramas que se tecem emBabel, filme americano do diretor mexicano Alejandro GonzálezIñárritu, que acaba de ganhar o Globo de Ouro e é um dosfavoritos ao Oscar. Não é a primeira vez que Iñárritu se mete em tramasentrelaçadas. Aliás, ele estreou assim, com o surpreendenteAmores Brutos, filme também estruturado sobre acidentes,traumas, desastres pessoais que se refletem um sobre os outros.Tudo está em contato com tudo. Tudo está conectado, como secostuma dizer por aí. Iñárritu acredita, sim, que todo osofrimento esteja conectado. É quase como um pressuposto daquiloque filma. Tudo está em contato com tudo Diga-se de passagem que essa estratégia não é nova (nadaé novo) e aparece, por exemplo, de Antes da Chuva, de MinchoManchevski, e Short Cuts, de Robert Altman. Históriasparalelas, que em algum momento acabam se cruzando. Como sedissessem, não apenas que tudo está em contato com tudo, mas quetodos fazemos parte de uma mesma família humana e que, portanto,nada nos é estranho, nem a Guerra no Iraque, nem o glamour deHollywood, nem a fome na África...Todos humanos, e o cinema nosrecorda. Mas nos diz também - e esse é o caso de Babel - queestamos juntos num mundo desacertado. Por isso, uma família decamponeses marroquinos pode comprar um rifle para defender seurebanho, sem saber que ele será usado por uma das crianças dacasa e isso terá conseqüências dramáticas. Também um casal queparte em férias, Susan (Cate Blanchett) e Richard (Brad Pitt)não pode saber que o passeio vai se transformar em pesadelo. Numoutro canto do mundo, a babá mexicana Amelia (Adriana Barraza)acha que pode cruzar impunemente a fronteira em companhia deduas crianças, e que pode confiar na responsabilidade do seusobrinho, Santiago (Gael García Bernal). Em outra latitude elongitude, um homem, viúvo, procura estabelecer algum tipo decomunicação com sua filha surda-muda, que tem sua própriamaneira de relacionar-se com a vida. Babel é mais uma colaboração entre Iñárritu e seuroteirista Guillermo Arriaga, parceria que começou com AmoresBrutos e continuou com 21 Gramas. Babel talvez tenha sido oúltimo da sociedade, uma vez que diretor e roteirista andarambrigados, por uma dessas ciumeiras que o sucesso traz.Sina da disparidade Fato é que Arriaga escreve suas histórias muito bem, masnem ele, num filme de episódios interligados, escapa à sina dadisparidade de qualidade entre elas. Assim, em Babel, é atrama no Marrocos que parece dar mais certo e causar melhorImpressão. Também não é nada má a história que se passa entreTijuana e Los Angeles, ainda mais porque põe em xeque a questãoda fronteira entre México e Estados Unidos, uma das linhasquentes do planeta. Também aqui há uma recusa em fazer dospersonagens meras figuras ou estereótipos. Amelia, as crianças,Santiago, são personagens patéticos do mundo dito global, ondemercadorias e divisas circulam com toda a liberdade, mas pessoasvêem-se limitadas por passaportes, vistos e até muros, como é ocaso da fronteira entre aqueles dois países. O sentimentomexicano a respeito está bem expresso no filme, é uma assinaturapor assim dizer. Já o episódio japonês, sem ser de maneira nenhuma ruim,destoa um pouco dos outros dois. Isolado, seria ótimo. Nocontexto do filme, diminui-se um pouco. Esse, aliás, é o problema de Babel - as conexões entreas diferentes narrativas parece um tanto frágil. Elas não sesoldam com a naturalidade de um Antes da Chuva e muito menosde um Short Cuts, para comparar com os dois filmes com osquais mantém parentesco estrutural. As costuras ficam um poucovisíveis demais e isso contribui para enfraquecê-lo. Mas não a ponto de fazer de Babel algo menos do que umótimo filme. Um sincero retrato desse mundo multilingüístico emulticultural, condenado à coexistência mas que ainda nãoencontrou um modo razoável de fazê-lo. Babel (Babel, EUA, 2006, 142 min.). Drama. Dir. AlejandroGonzáles Iñárritu. 16 anos. Cotação: Ótimo

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