Estréia hoje filme premiado em Berlim

Com a revolução chinesa de 1949, os bordéis são fechados e duas amigas prostitutas, Qiuyi e Siao, tomam destinos diferentes. Siao (He Saifei) torna-se operária têxtil e Qiuyi (Wang Ji) vai morar com o amante, Lao Pu (Wang Zhiwen). Há desdobramentos nessas histórias, que seguem paralelas até se cruzarem no final.A linha do enredo não é estranha à tradição do melodrama. Curiosamente, porém, o diretor Li Shaohong não demoniza a revolução comunista. Certo, o novo regime interfere na vida das pessoas, mas nem de longe é o que se poderia esperar em uma obra de vocação melodramática. Quer dizer, aquele tipo de filme que pediria destinos separados, vidas estragadas pelas forças externas, perseguições perversas e tudo o mais. A sobriedade é o maior trunfo desse trabalho, que valeu ao diretor o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1995.E, claro, essa sobriedade se expressa na forma, na maneira de filmar de Shaohong. Fotografia discreta, sem grande luminosidade, elegância na construção dos planos, nos enquadramentos. Há momentos interessantes quando, por exemplo, dois personagens, marido e mulher, engalfinham-se numa briga terminal, e a câmera limita-se a mostrar a janela da casa. Outras cenas, de alta intensidade dramática, são acompanhadas de longe. Como se o cineasta tivesse pudor de escancarar a intimidade dos personagens em momentos difíceis.Essa delicadeza não é tão rara assim, embora pareça excêntrica numa época em que só o close, quer dizer a exposição no mais alto grau, vale. O grego Theo Angelopoulos, grande cineasta, acha que o close só pode ser usado em situações excepcionais e deve ser evitado ao máximo. Expõe demais, usa o rosto do ator como facilitário na expressão das emoções e portanto tende a chantagear o espectador. É uma tese, com a qual atores e atrizes talvez não concordem.Esse minimalismo, essa delicadeza que predomina em alguns instantes cruciais, faz a diferença deste Blush. Não, não chega a ser um filme excepcional. A história, no fundo, é um tanto banal, demora a engrenar e só no fim se precipita. Com o desfecho surpreendente, tudo o que veio antes ganha novo significado. Mas há passagens em que a lentidão parece pouco funcional.De qualquer forma, é preciso acostumar-se ao ritmo de Blush, a um tempo que é bem oriental, e pode desconcertar o espectador mais habituado à montagem rápida do cinema contemporâneo. Há que se colocar de maneira um tanto mais plácida em relação ao filme. Deixar que ele flua como as águas do rio em torno do qual se desenvolvem as histórias. E também deixar-se contaminar pela experiência quase sensorial desse filme que nos entrega imagens por vezes tão cheias de vida que as confundimos com as coisas mesmas. Essa sensorialidade faz parte da arte de filmar. Nem todos os filmes precisam ser assim. Mas é bom que alguns produzam esse tipo de efeito.

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