Estréia "Harry Potter 3", para delírio dos potterfãs

Em vez daquela Hogwarts sombria egótica de Chris Columbus (o diretor dos filmes anteriores), odiretor do novo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, omexicano Alfonso Cuarón, optou por uma escola de bruxos maisensolarada, mais cheia de humor e companheirismo. Os retratosnas paredes do castelo agora têm vida, e são engraçados. Asfalas são mais irônicas, com boas gags para divertir a molecada.Os vilões andam na sombra, e os heróis, que cresceram junto como seu público, dividem as ansiedades que antes eram exclusivasdo protagonista - e vestem as mesmas roupas jeans que osespectadores, em vez daquelas batas medievais. Por diversas razões, Harry Potter e o Prisioneiro deAzkaban é o melhor filme da série até agora. Primeiro, porquese aprofunda na fantasia em vez de tentar competir com alinguagem dos videogames. O máximo de visual mirabolante que sevê é o passeio de Harry no cavalo-águia Bicuço - e o aprendiz defeiticeiro conquista esse direito com jeito, e não com mágica. Os Harry Potters anteriores eram moralistas demais. Aescola Hogwarts parecia uma seita desumanizada, neblina queCuarón faz questão de dissipar. E já no começo do filme, quandoHarry infla sua tia racista fazendo-a desaparecer nos céus deLondres como aqueles balões do Pink Floyd. Um feiticeiro nãoprecisa aguentar tanto desaforo. O diretor também toma algumas liberdades poéticas, porassim dizer, com o livro de J.K. Rowling. Por exemplo: aquelascabeças encolhidas falantes não existem nos romancesinfanto-juvenis da autora. Cuarón trouxe as cabeças do folcloremexicano, e as dispôs no Knight Bus (o ônibus de três andaresvertiginoso que percorre as ruas de Londres recolhendo bruxosperdidos) e também na porta de uma taverna de feiticeiros. O novo Harry Potter traz dois ensinamentos básicos, eos dois ensinam a subversão e a desobediência civil. Porexemplo: o mago mestre Dumbledore (Michael Gambon, afávelsubstituto do saudoso Richard Harris), quando deixa Harry eHermione voltarem ao passado para consertarem um estrago, osensina que a Justiça é mais importante que a lei burocrática ecega. A segunda lição é ensinada pela professora SibilaTrelawney (Emma Thompson, magnífica no papel de uma Madame Minabilolada, de óculos de fundo de garrafa) à devoradora de livrosHermione. A garota desdenha dos dotes intuitivos da mestra. Sóacredita na objetividade, nos livros e na lógica. A professora afaz ver que sua aversão aos instintos, na verdade, é umaestratégia de ocultação dos sentimentos e de sua sexualidadeemergente. Gary Oldman, como o sinistro Sirius Black (na verdade, avítima de uma grande injustiça), faz pouco mais de uma ponta, oque é uma pena. Mas sua participação já estaria justificadaapenas se aparecesse naquele cartaz de Procura-se, em que elefaz uma cara de lunático tentando morder quem se aproximar. Cuarón também explora melhor as características cômicasdo acovardado Ron (Rupert Grint), faz o sisudo e calculistaProfessor Snape (o grande Alan Hickman) mostrar a sua faceatrapalhada e introduz os novos personagens sem didatismo -inclusive o professor Lupin, brilhantemente encarnado por DavidThewlis. Os dementadores, personagens temidos pelos leitores dosromances, não assustam tanto. Dá até para levar os garotosmenores, sem sustos.

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