Estréia "Geração Roubada", premiado na Mostra

Vencedor do prêmio do público na recente Mostra Internacional de Cinema São Paulo, Geração Roubada trouxe à cidade o diretor Phillip Noyce, que veio apresentar o filme baseado numa história real ocorrida na Austrália. Geração Roubada conta um daqueles casos que chocam qualquer boa consciência. Mas, apesar disso e do clamor que o episódio suscitou no país e no exterior, os governos que se sucedem na Austrália recusam-se a assumir que aquilo, de fato, houve. "É o que prova a diferença entre a história oficial e a privada", disse em São Paulo o diretor Noyce. Ele descobriu tardiamente o episódio. Nos anos 1930, crianças aborígines foram separadas dos pais e forçadas a participar de um programa segregacionista de educação. Na verdade, eram treinadas para desenvolver tarefas subalternas, num projeto que, sendo de eugenia, somava racismo e violência. Três dessas crianças fogem da escola, que mais parece um campo de concentração, e iniciam a longa viagem para casa. Recebem, aqui e ali, algum tipo de ajuda, mas a jornada é árdua. Nos anos 1970, o ex-fotógrafo Nicolas Roeg, já instalado como diretor, fez A Longa Caminhada, sobre um garoto e uma adolescente de origem européia perdidos no deserto australiano e que dependem da solidariedade de um aborígine para sobreviver. David Gulpilil era o intérprete do papel e o filme já tratava de choques culturais num cenário inóspito. O mesmo ator volta em Geração Roubada como o rastreador que dificulta a atividade do grupo que caça as crianças. Desta maneira, consegue ajudá-las. Noyce pertence à primeira geração de diretores australianos formada pela Film and Television School. Dirigiu filmes elogiados pela crítica até que foi cooptado por Hollywood. Segundo suas próprias palavras, Noyce virou um bom soldado na guerra do cinema americano para dominar os corações e mentes de espectadores de todo o mundo. Fez, entre outros, os dois filmes do agente Jack Ryan interpretados por Harrison Ford, Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato. Com O Americano Tranqüilo, voltou a uma linha de cinema mais crítico, que reafirma com Geração Roubada. Sua dramaturgia pode ser considerada tradicional, mas o filme é forte e eficiente. Tocou o público da mostra. O desfecho deve ter contribuído para isso. Noyce construiu-o a partir de filmes que fez com câmera portátil, durante o período de pesquisa para desenvolvimento do projeto.

Agencia Estado,

21 de novembro de 2003 | 12h28

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.