Estréia 'Garoto Cósmico', animação de Alê Abreu

Diretor fala da aventura 'barroco-científica' do desenho que tem influência de Chaplin entre outros

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de janeiro de 2009 | 19h32

Para os sobrinhos e para o irmão da namorada, Alê Abreu, de 38 anos, é o ‘Dindo’, o tio louco que vive de desenhar. Como assim, desenhar? Foi uma opção que ele fez já há alguns anos. Houve um tempo em que o trabalho de animador de publicidade pagava as contas de Alê. Ele podia até ganhar mais dinheiro, mas não se reconhecia no próprio trabalho, que era anônimo. E o que Alê sempre quis foi fazer do seu desenho uma forma de interpretar - e aprimorar, com todas aquelas cores - o mundo. Alê Abreu desistiu da publicidade e hoje vive somente da sua atividade como ilustrador e animador.  Veja também:Trailer de 'Garoto Cósmico'  Música da trilha sonora do filme 'Garoto Cósmico'   Ele demorou quatro anos para fazer o curta Espantalho e sete para concluir o longa Garoto Cósmico, que estréia quinta-feira, 10. Parece tempo demais, mas Alê reconhece que precisava dele, e não apenas por causa das já tradicionais dificuldades financeiras que afligem o cinema brasileiro, ainda mais na animação, a chamada 8ª arte, que sobrevive no País por meio de tentativas isoladas de malucos como ele. Alê vê o Brasil nas músicas de Milton Nascimento, no Cinema Novo de Glauber Rocha. Ouvindo Milton, sempre se perguntou - qual é o desenho desta música? É o que persegue - um desenho, uma animação, autenticamente brasileiro(a). Para chegar a isto, é preciso se desvencilhar de toda uma tradição que domina o imaginário do público. E não apenas as crianças. A Disney vem formando gerações há décadas, desde que o velho Walt criou Mickey e, depois, Branca de Neve e os Sete Anões. No belo A Culpa É do Fidel, de Julie Gavras, que está virando cult no circuito de arte de São Paulo, o pai socialista impede os filhos de lerem as revistinhas de Mickey, porque é um agente do imperialismo. Por mais que a radicalização, política e ideológica, produza esses raciocínios que parecem ridículos, a busca de um desenho ‘brasileiro’ é a meta de Alê. Isso se manifesta num tempo que não é o acelerado das animações da Disney, em temas que não são os dos desenhos que nos chegam de Hollywood. Garoto Cósmico teve uma gestação complicada. Depois de Espantalho, Alê queria se lançar logo a outro projeto, fundamentalmente porque adora desenhar. Mas não conseguia optar entre dois projetos - um era um road movie sobre circo, o outro sobre um garoto submetido a disciplina rígida e que descobre o mundo lúdico. Alê terminou juntando os dois projetos num só, e surgiu Garoto Cósmico, que ele define como uma aventura ‘barroco-científica’. Embora pareça uma definição incompreensível para as crianças, instintivamente, ao falar sobre o filme, elas revelam compreensão. Consciente de que não conseguiria criar uma boa história sozinho, Alê trabalhou com três roteiristas, que foram se revezando. Ele iniciou a animação sozinho, mas chegou a ter 15 pessoas animando Garoto Cósmico, cada uma com seu computador. Por mais prazer que lhe dê o desenho, Alê sabe que o cinema não é uma atividade solitária. O próprio filme passa uma idéia de grupo. O garoto cósmico vive neste planeta-dormitório de crianças, submetido ao que se chama de ‘programação’, uma série de atividades que se repetem. Ele foge com alguns amigos e vai parar neste planeta em que encontra o circo, que vai subverter a disciplina da programação. O próprio circo é ameaçado por um vilão, que o garoto cósmico e seus amigos terão de enfrentar. Embora preocupado em criar um desenho brasileiro, Alê sabe que Garoto Cósmico é cheio de referências e influências. "Tem um pouco de Charles Chaplin, Tempos Modernos; tem o René Laloux e o Topor e o Moebius, que tiram o longa de animação do público infantil, ao qual parece reservado." A idéia do planeta, tão pequeno, não tem a ver com O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry? Os olhos de Alê brilham. "Não tinha pensado, mas as referências são tantas que pode ter, sim." E a explosão de cores? "Não sei explicar, mas se o filme não tivesse todo esse colorido barroco não seria meu." Há um ano Alê vem mostrando Garoto Cósmico para platéias infantis. Ele sente uma receptividade muito forte. A estréia terá 27 cópias. Vai estourar? "Não sei, mas é uma expectativa boa", ele diz. Para breve - tomara que não sejam mais sete anos - promete outra animação, agora centrada no tema da latinidade. Alê prossegue com sua vertente não hollywoodiana.  Garoto Cósmico (Brasil/ 2007, 75 min.) - Animação. Dir. Alê Abreu. Livre. Cotação: Bom

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