Estréia "Free Zone", no filme do diretor Amos Gitai

?Acredito na força do cansaço? É o que diz Amos Gitai, diretor de Free Zone, constatando que as populações árabes e israelenses estão exaustas da guerra Na entrevista que concedeu por telefone ao Estado, o diretor israelense Amos Gitai disse que, não apenas ele, mas todos os artistas da região se vêem obrigados a incorporar aquele real em transe em suas obras. Gitai é o maior nome do cinema do seu país, habituée dos festivais de Cannes e Veneza. Promete vir a São Paulo em outubro para dar uma master class na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, atendendo ao convite de Leon Cakoff, de quem é amigo. Como teve a idéia de Free Zone? A idéia surgiu de um motorista da minha produtora, que um dia me contou a história dele. Ele estava desempregado e encontrou um sócio, palestino morador da Jordânia, e os dois se meteram no negócio de veículos blindados. Vendiam os carros na Zona Livre. Então eu pedi para ele me levar, nós atravessamos o Vale do Jordão e chegamos àquele local. Achei que era uma boa história para contar. E, no entanto, as três personagens são mulheres... Resolvi transformar os personagens em mulheres. O chofer, Ofer, virou Hanna; o sócio, Samir, virou Leila, e eu... virei a Natalie Portman (risos), quer dizer, Rebecca, a americana. Mas havia uma razão para que os personagens fossem mulheres? Certamente. Achei que as mulheres é que podiam ter uma relação de exterioridade, mais crítica, em relação a esse conflito, que é basicamente masculino. Em geral, em todos os conflitos, os chefes são homens, são os generais, dirigidos por políticos, homens também, como são homens os chefes da organizações clandestinas. Talvez um dia se a gente passar o poder às mulheres nos liberaremos desse ciclo de violência. A primeira cena do filme, uma longa tomada diante do Muro das Lamentações, com Natalie Portman chorando, é muito tocante. É um dia um pouco melancólico, há a chuva, mas é um momento até certo ponto doce, com o carro estacionado diante do Muro das Lamentações em Jerusalém, que já um lugar muito emocional, por sua história mesmo. Natalie está no banco de trás e Hannah no da frente. Mas eu quis que no primeiro momento só se visse Natalie. O espectador vê apenas um rosto de mulher que chora, longamente. Acho que ela fez a cena de maneira maravilhosa e prepara todo o clima do filme. Há também uma música muito tocante no fundo. Que música é essa? É uma canção, que se chama Had Gadia, que se canta na festa da Páscoa judaica. A letra conta uma história um pouco darwinista, em que uma espécie caça outra, e achei que era uma forma de fazer um contraponto entre a causa do choro de Rebecca, muito íntimo e pessoal, e ao mesmo tempo muito público. Aquele lugar, a Zona Livre, onde fica e como funciona? Ela fica no Leste da Jordânia e é um mercado de carros usados e outros objetos, freqüentado por sauditas, jordanianos, palestinos, sírios, enfim, árabes de todos as regiões, e, claro, também por israelenses... Quer dizer, é uma zona de livre comércio e portanto serve de metáfora para uma saída possível para a região? É claro, foi isso que me encantou na Zona Livre. Existe um local, numa região conhecida por seus conflitos imensos, onde as pessoas conversam, fazem negócios, e encontraram uma forma de se comunicar, que parece bem eficaz. Nesse filme, com em outros seus, há uma certa tonalidade documental. Gostaria que falasse um pouco dessa característica. Israel não é um país completo, é um país em construção. As linhas não são completamente desenhadas e o país às vezes se assemelha a uma irrupção vulcânica. É dessa incompletude que vem tanto a sua grande energia quanto seus problemas. Eu me sinto como uma testemunha desse processo, dessa situação que está se construindo diante dos meus olhos. É essa história fragmentada, estilhaçada mesmo, que eu me sinto obrigado, como artista e cidadão, a transformar em matéria ficcional. Mesmo porque o documental é bastante enriquecedor para a ficção... Estou de acordo. Alguns filmes de ficção me parecem muito previsíveis, justamente porque não incorporam essa surpresa do real. Além dos seus filmes, outros também estão sendo feitos no Oriente Médio. O palestino Paradise Now acabou de ganhar o Globo de Ouro, por exemplo. Acha que esses filmes ajudam na compreensão da região? Nesta região o cinema tem de dialogar o tempo todo com o real. Não apenas os cineastas mas escritores, pintores, todos os artistas têm de dialogar com esse real, tentar interpretá-lo, o que cria uma situação delicada, porque é preciso abordar os problemas sem ser doutrinário, sendo aberto, evitando clichês, mas também o politicamente correto, que não leva a nada. É um fio de navalha sobre o qual se tem de caminhar E como você vê o momento político, com a doença de Ariel Sharon? A realidade aqui é mutante. A cada vez que tentamos antecipar alguma coisa, ela já mudou. Não podemos ser tão deterministas e tentar prever o que será o pós-Sharon. Mas é claro que existe uma real vontade de mudar, tanto por parte dos israelenses como dos palestinos. Há uma exaustão desse conflito tão longo. Acho que às vezes a resolução de um conflito chega nem tanto pelas idéias nobres, mas pela fadiga. Acredito muito na força do cansaço. Nesse sentido, a cena final, com a americana correndo enquanto a israelense continua a brigar com a palestina é bem significativa. Pois é (rindo), acho que se nós mesmos não encontramos uma solução, vamos continuar a nos destruir e a chatear o resto do mundo.

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