Estréia filme sobre Jesus estrelado por Keisha Castle-Hughes

Você, cinéfilo, deve lembrar-se da abertura de OEvangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. Há umplano de Maria grávida, outro que expressa a dúvida na cara deJosé, pois ele sabe que aquele filho não é dele. Entra o anjo,que vem tranqüilizá-lo, dizendo que o se produziu em sua mulheré obra do Espírito Santo. Catherine Hardwicke, a diretora deJesus - A História do Nascimento, que estréia na sexta-feira em 200salas de todo o Brasil, deve ter visto o filme cultuado do autoritaliano. Comunista e ateu, Pasolini não parecia o mais indicadopara filmar o Evangelho, mas quando ele o fez e seu filme, paraespanto de muitos cristãos ao redor do mundo, ganhou o prêmio doOcic, o Office Catholique International du Cinéma, no Festivalde Veneza de 1964, prêmio que repetiu, quatro anos depois, comTeorema. Há um mistério nesta história que fascina,independentemente de fé. É a maior história de todos os tempos,com peripécias como nenhum roteirista saberia criar. Jesus - A História do Nascimento chega aos cinemasbrasileiros no bojo de uma polêmica. Keisha Castle-Hughes, agarota de 16 anos que encarna Maria, a mãe do filho de Deus, ganhouprojeção internacional ao ser indicada para concorrer ao Oscarde melhor atriz, por Encantadora de Baleias. Transformada emheroína na Austrália, modelo para as adolescentes do país, eranatural que estrelasse uma campanha de prevenção contra agravidez. Simultaneamente, foi contratada para fazer o filme deCatherine Hardwicke, a diretora de Aos Treze. Jesus jáestava pronto quando estourou o que, para muita gente, foi umabomba - Keisha, por não tomar os cuidados que pedia às outrasadolescentes que tomassem, engravidou. Até o Vaticano entrou nahistória, considerando a gravidez ultrajante. Há um mistério de Maria, um segredo de que a Igreja seapossou e que impede que seja revelado - é a tese de Dan Brownem O Código da Vinci, que virou filme de Ron Howard. Refere-seà outra Maria, a Madalena, que teria sido apóstola do Cristo ecom ele se deitou, tendo tido vários filhos - era o devaneio deJesus, pregado na cruz, em A Última Tentação de Cristo, deMartin Scorsese. A Igreja, embora trate de questões espirituais,é uma instituição secular. Otto Preminger fez o que talvez sejao maior filme sobre o embate entre o indivíduo, o religioso, e ainstituição que o ultrapassa em "O Cardeal", de 1963. Segredossão para ser guardados, colocam dogmas em xeque. Catherine Hardwicke já vinha trabalhando, há anos, comodiretora de arte quando fez Aos Treze. O filme ganhou prêmiosem diversos festivais e teve críticas favoráveis pelo enfoqueque a autora dava ao tema do gap entre as gerações. Há umadificuldade de comunicação entre pais e filhos. Por maior queseja o entendimento, ou a tentativa de, existe essa questãogeracional, que também é de hormônios. Catherine fez um bomfilme sobre isso, num ambiente moderno, envolvendo a sempredelicada questão do sexo na adolescência. Ei-la que volta, agora em outro contexto, aos mesmos temas do sexo, da juventude, dafamília. O espectador que acompanha, a distância, a polêmicasobre Jesus - A História do Nascimento, talvez pegueanimosidade contra o filme, achando-o carola ou, o que é pior,sensacionalista. Nem uma coisa nem outra, mas a fé é importante.Está permanentemente em discussão. Catherine Hardwicke abre seufilme com o massacre dos inocentes, quando o rei Herodes,temendo que se confirmem as escrituras que anunciam o advento doMessias, ordena que todos as crianças com menos de 2 anos sejammortas em Belém. Um ano antes, Zacarias, ao ser honrado notemplo, duvida do Senhor que lhe anuncia que sua mulher idosaterá um filho e fica mudo. É neste mesmo contexto ?político?, aJudéia dominada pelo tirano Herodes e pelos romanos, sonhandocom o Messias anunciado, que Catherine Hardwicke desenvolve suahistória. Nicholas Ray já tentou fazer isso e foi apenasparcialmente bem-sucedido em Rei dos Reis, de 1961. Éinteressante, mesmo que o filme não seja nenhuma maravilha, vercomo Catherine encara a questão. Há uma tensão entre homens emulheres, em Jesus. Isabel e Maria acreditam, porque têm fé.Zacarias e José duvidam, mas sua dúvida é diferente. Apesar detoda a sensação que Keisha Castle-Hughes trouxe para o filme,ela tem uma boquinha petulante, alguma coisa que não cola nopapel (e repare como é parecida com Olivia Hussey, a Julieta deFranco Zeffirelli). Oscar Isaac, em contrapartida, é um beloJosé. Ele sempre quis ser honrado e teme que a gravidez de Mariao submeta ao escárnio. Quando assume que o filho é de Deus, suadúvida, como pai terreno, é expressa numa angustiada pergunta aMaria - "O que poderei ensinar a esse garoto?" Ao filho de Deus?Catherine Hardwicke falou sobre pais e filhos em Aos Treze.Com base no Evangelho, fala agora de pais. Seu filme pode terdefeitos, mas é honesto.Jesus - A História do Nascimento (The Nativity Story,EUA, 2006). Dir. Catherine Hardwicke

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