Estréia filme de Ruy Guerra sobre obra de García Márquez

Vencedor do Prêmio Multicultural Estadão Cultura de 2003, Ruy Guerra é um diretor que tem mais do que simplesmente um currículo respeitável - fez grandes filmes do Cinema Novo (Os Cafajestes, Os Fuzis) e depois nunca cessou de surpreender, buscando sempre a radicalidade em obras como a sua adaptação de Estorvo, de Chico Buarque. Criou-se a fama do diretor exigente e difícil. Exigente, tudo bem, mas difícil? O próprio Guerra observa - "Variety, a Bíblia do cinema de Hollywood, fez uma crítica favorável de O Veneno da Madrugada. E, anos atrás, quando foi comentar o documentário Mueda, Massacre e Memória, o crítico da revista também revelou um bom conhecimento da minha obra." Adaptar um livro de Gabriel García Márquez é sempre difícil porque o escritor colombiano não atua no registro do realismo. O Veneno da Madrugada, que estréia hoje, baseia-se em La Mala Hora. "Ele (o escritor) trabalha com um universo mitológico", diz o cineasta, dando outro nome ao "realismo mágico" de Gabo. Sob esse prisma, a magia de Veneno consiste em criar não um sonho, mas um pesadelo. O primeiro desafio que Guerra se impôs foi fazer o filme com fotografia escura, chuva do princípio ao fim e muita lama. Isso, obviamente, criou problemas no set, mas ele adora os desafios. Guerra queria lançar Veneno em cópias (e projeção) digitais, mas aí, com o fotógrafo Walter Carvalho, descobriu que as próprias condições específicas da imagem poderiam prejudicar a intenção e recuou. Foi uma das raras coisas de que abriu mão em O Veneno da Madrugada. Seu desafio maior refere-se ao tempo. No Festival de Tiradentes, homenageado pelo conjunto da obra, Guerra mostrou seu primeiro longa, Os Cafajestes, que provocou escândalo pela nudez frontal de Norma Bengell, em 1962, e o mais recente, Veneno. Embora separados por mais de 40 anos e por condições distintas de produção, os dois filmes são muito próximos. Um trabalha num universo mítico, o outro trata de cafajestes urbanos. Ambos são esplendorosamente filmados e atribuem uma importância imensa ao tempo, tema essencial no cinema de Guerra. A estrutura temporal de Veneno leva a uma narrativa em espiral. A história passa-se numa cidadezinha isolada pela chuva e dominada por um alcaide que sofre com a dor de dente. Ele luta contra a elite representada pela viúva Assis. Leonardo Vieira e Juliana Carneiro da Cunha interpretam os papéis. Há um mistério entre eles, que fica claro mais tarde. E há um crime, reconstituído em três diferentes versões. Guerra não pretendeu fazer uma variação do clássico Rashomon, de Akira Kurosawa, que, aliás, admira. A soma das três versões produz uma quarta no espectador - é o filme. O diretor admite que trabalha, cada vez menos, com reações de causa e efeito. Isso tem a ver com sua fascinação pela física quântica, que relativiza a questão da realidade e do tempo. "Talvez por isso meus filmes estejam ficando mais complicados", ele diz. A soma de esplendor visual, o universo mítico de García Márquez, com seus alcaides e putas tristes, o provincianismo político, a corrupção - mais do que Mikhail Kalatozov em Soy Cuba!, Guerra criou, em O Veneno da Madrugada, o perfeito mamute siberiano. Seu filme provoca uma admiração fria. Ele discorda, mas compreende. Veneno estréia num circuito reduzido. É um filme que precisa ir devagar, ocupando o espaço em busca do público que vai assimilar suas ousadias. O Veneno da Madrugada (Br-Arg-Por/2004, 118 min.). Drama. Dir. Ruy Guerra. 14 anos. Cine Bombril 2 - 14h, 16h30, 19h, 21h30. HSBC Belas Artes 2 - 14h30, 16h40, 18h50, 21h. Unibanco Arteplex 5 - 14h, 16h30, 21h30 (sáb. também 0h). Cotação: Regular.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.