Estréia filme baseado em Ulysses, marco da literatura

Sean Walsh gosta de citar Woody Allen, que disse certa vez - se tivesse que recomeçar, ele faria tudo de novo, menos assistir a O Mago, que Guy Green adaptou do livro de John Fowles. A boutade, tipicamente alleniana, aponta para uma categoria de filmes - os que se baseiam em obras, em princípio, não filmáveis. É o caso do Ulysses, de James Joyce, um marco da literatura no século 20. Ulysses é considerado infilmável porque o cinema não é o melhor meio para reconstruir o fluxo de consciência que está na base do livro famoso. Mas os diretores tentam - em 1967, Joseph Strick fez A Alucinação de Ulisses, que se preocupa menos em buscar equivalentes cinematográficos para a linguagem neologística do escritor do que em tirar uma narrativa linear do livro. Agora, é Sean Walsh quem assume o desafio. Durante dez anos, o jovem cineasta de Dublin perseguiu o sonho do "Bloom ou nada". Leopold Bloom é o protagonista do livro. Como o Ulisses de Homero, vive sua odisséia no dia 16 de junho de 1904 - que se tornou uma data cultivada pelos fãs do livro em todo o mundo. É o Bloomsday. Walsh tem uma trajetória pessoal curiosa. Em princípio, não parecia a pessoa mais indicada para assumir tamanho empreendimento. Ele tinha 32 anos quando se lançou ao projeto. Antes de trabalhar com cinema e TV, foi bancário, operário, açougueiro, músico e instrutor de esqui para cegos. Walsh gosta de dizer que quis fazer o Ulysses como uma reação à academia, que seqüestrou o livro de Joyce e o transformou numa obra para iniciados. Ulysses, realmente, é um labirinto de metáforas, psiquismos, livres associações, tautologias e neologismos vernaculares para os quais o outro Ulisses, o de Homero, não deixa de ser uma referência. O problema é que, qualquer tentativa de restringir (ou tornar mais acessível) a complexidade do livro, não apenas trai o propósito do escritor - que nunca quis criar um romance tradicional - como cria uma outra coisa. Neste dia 16 de junho, o judeu-húngaro Leopold Bloom sai a esmo por Dublin. Caminha sem sair do mesmo lugar, viaja na consciência e na imaginação. Tudo se passa na cabeça dele e também na de sua mulher, Molly, e na de um jovem poeta, Stephen Dedalus. O que significa essa viagem é um dos mais complexos enigmas da arte contemporânea. Joyce, como outros escritores que lhe foram contemporâneos - Marcel Proust e Virginia Woolf -, implodiu a maneira tradicional de narrar e mostrou que tão ou mais importante que a história, propriamente dita, é o fluxo de consciência dos personagens. Joyce e seu Ulysses se tornaram sagrados para os iniciados em seus mistérios. Walsh, como diz, não quer simplificar o escritor, mas colocá-lo em outra perspectiva. Seu personagem é um homem comum e a riqueza da linguagem de Joyce constitui uma forma lírica, irreverente, desbocada, provocativa e também profunda de narrar (sem dar a impressão de que está narrando, sustenta o cineasta). A questão é - como se traduz isso em termos de cinema? Existe uma história, para quem quiser encontrá-la, na pedreira de informações criada por Joyce. Essa história pode ser dividida (ou resumida) em mais ou menos três partes - a ligação/projeção de Bloom e Dedalus, o mergulho na night town, que é a parte mais rica em incidentes, e o solilóquio de Molly, que Joyce deliberadamente escreveu sem apóstrofes. Cada parte apresenta seus problemas específicos. Bloom é assolado por obsessões pornográficas e moralmente duvidosas; o solilóquio de Molly é mais do que simplesmente uma discussão de uma personagem consigo mesma (como faz o Hamlet de Shakespeare, no Ser ou não Ser). E o problema maior é que, desconstruindo a linearidade e a própria psicologia, Joyce propõe uma perspectiva épica na qual se inscreve a sua Dublin mítica. Sean Walsh não dá conta dessa complexidade, mas cria fragmentos mais ou menos logrados (ou interessantes). O problema do cinema é que não é o melhor meio para ilustrar abstrações ou a corrente de pensamento. Por jogar com imagens concretas, o público tende a aceitar como realidade física irrefutável o que bate na tela. Federico Fellini, Alain Resnais e Ingmar Bergman abriram o cinema, nos anos 1950 e 60, ao fluxo de consciência joyciano, em filmes como Oito e Meio, O Ano Passado em Marienbad, Morangos Silvestres e Quando Duas Mulheres Pecam (Persona). Walsh não ignora essas contribuições, mas não sabe muito bem como articulá-las. O filme fica confuso, mas o diretor defende-se dizendo que nunca, ninguém, entenderá o livro completamente. Ele leu Ulysses 50 vezes e escreveu 800 tratamentos de roteiro. Poderia ter simplificado a vida para si e para os espectadores - o mais próximo que o cinema chegou do Ulysses, de Joyce, foi em Uma Vida em Pecado, o belo Studs Lonigan, de Irving Lerner - que, curiosamente, co-dirigiu Muscle Beach com Joseph Strick. Bloom (Irl/2003, 113 min.). Drama. Dir. Sean Walsh. 16 anos. Cineclube Vitrine 1 - 14h10, 16h40, 19h10, 21h40. Espaço Unibanco 1 - 14h30, 16h50, 19h10, 21h30 (4.ª não haverá 21h30). Reserva Cultural 2 - 17h20, 19h30, 21h40. Cotação: Regular

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