Estréia filme argentino Buenos Aires 100 Km

Há uma riqueza do cinema argentino, que críticos e até diretores não se cansam de destacar. Walter Salles é um entusiasta do país do Prata. Ele vive elogiando a produção de lá. O cinema argentino costuma ser bem escrito, dirigido e interpretado. Conta histórias humanas, redondas, com personagens verdadeiros em situações idem. Comparativamente, o cinema brasileiro oscila entre uma produção de mercado mais medíocre e outra autoral que, com raras exceções, é preciso ser doido para levar a sério. Deve haver uma terceira via. O cinema argentino prova isso. Tem Lucrecia Martel e Juan José Campanella. Tem Pablo Trapero e Fabián Bielinsky. Nesse quadro de polarizações surgem estreantes talentosos como Pablo José Meza.O jovem diretor de 31 anos faz sua estréia com Buenos Aires 100 Km. O filme concorreu na mostra latina do Festival de Gramado do ano passado. Não levou nada, o que soma pontos a favor de Meza. A seleção brasileira de Gramado em 2005 foi fraca (a latina foi melhor), mas o júri conseguiu piorar as coisas. Buenos Aires 100 Km está longe de ser perfeito, mas se há um filme que se pode amar pelos defeitos é esse. Nesse sentido, lembra um pouco De Passagem, de Ricardo Elias. Honestidade e paixão são suas melhores qualidades. Os defeitos correm por conta da inexperiência do diretor. Trazem a marca da sinceridade. O repórter do Estado participou, há pouco, do júri da Caméra d?Or, o prêmio que o Festival de Cannes destina para o melhor filme de diretor estreante. Era preciso ver o carinho dos irmãos Dardenne, que presidiam o júri, pelos defeitos dos cineastas que davam seus primeiros passos.O título é importante - os 100 km referem-se à distância da cidadezinha em que se desenrola a ação da capital, Buenos Aires. O tema de Pablo José Meza é a vida de província, filmada pelos olhos de cinco adolescentes que realizam o rito de passagem. Não é preciso ser cinéfilo de carteirinha para identificar as influências sobre o diretor - Os Boas Vidas, de Federico Fellini; Os Incompreendidos, de François Truffaut; Conta Comigo, de Rob Reiner. Cada geração tem um filme que expressa suas indagações de juventude. Até American Pie, a série iniciada por Paul Weitz em 1999, de alguma forma expressa, na tela, uma certa juventude americana com a qual se identifica a juventude brasileira dos shoppings. American Pie é horrível? É, mas se trata de um celeiro no qual autores importantes, como Woody Allen, garimpam atores que colocam sangue novo no seu cinema. Comparativamente, o encanto de Buenos Aires 100 Km parece mais antigo, mas essa é sua qualidade, não seu defeito. Os cinco adolescentes são, inicialmente, unidos como os dedos de uma mão. Você deve se lembrar de Katina Paxinou, como Rosario Parondi, no clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Ela mostrava a mão e dizia que os cinco filhos eram assim, unidos como os seus cinco dedos, antes que a violência da cidade grande implodisse com a família.Entre jogos de futebol, namoricos e passeios de bicicleta, os garotos são confrontados com as duras coisas da vida. Falta de dinheiro, decepções amorosas, pulsões do sexo. A luta pela sobrevivência, as pequenas grandes mentiras. Tudo se reflete neles. Meza é muito simples e direto. Não tem afinidades com o universo pleno de alegorias e metáforas de Lucrecia Martel, mas prossegue, à sua maneira, com uma reflexão que já está na obra da autora de A Menina Santa. Lucrecia pode estar falando de família, de abuso infantil. Não importa a história, seu tema é sempre o toque, o movimento de aproximação e repulsa no qual ela identifica a matriz cultural do argentino. Os mais belos momentos de são muitas vezes cenas tristes, que reproduzem o toque dos garotos entre eles ou com as meninas. A cena da revelação de que um deles é adotado é tocante. E, como em Rocco, por pressões internas e externas, a união revela-se precária. O grupo não terá como prosseguir unido. Como diz a menina, com precoce (e amarga) sabedoria, estão todos condenados a crescer e a se separar, porque ?a vida é assim?.Buenos Aires 100 Km não é perfeito, mas como poderia ser perfeito um filme sobre o rito de passagem, com tudo o que tem de efêmero? Recusá-lo por suas imperfeições é privar-se das pequenas grandes verdades que o jovem Meza consegue embutir em suas imagens. Como muitos autores inexperientes, ele ainda não domina seu material. O final em suspense presta-se à controvérsia quando o assunto é resolvido. Um diretor mais experiente talvez fechasse o filme de forma diferente, mas o encerramento é bonito, mesmo que redundante. E Buenos Aires 100 Km nos confronta, de novo, com a riqueza e diversidade do cinema argentino.Você pode ver o filme de Meza e também o de Fabián Bielinsky em pré-estréia (Aura), que possui grande riqueza estilística e metafórica, confirmando que o êxito de Nove Rainhas, também com Ricardo Darín, não foi por acaso na carreira do diretor. E pode preparar-se para Buenos Aires 1977, que foi o título que recebeu na França o longa de Israel Adrián Caetano que integrou a mostra competitiva do Festival de Cannes. Essa recriação de um episódio verídico, a fuga de prisioneiros de um centro de tortura do regime militar, é o menos atraente de todos, mas deve integrar a mostra latina do próximo Festival de Gramado, que vai mudar um pouco seu perfil, sem se fechar para o cinema da América Latina.

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